Está Tudo Bem Comigo?
Pequenas Crônicas
Ela o viu pela primeira vez na fila do terminal rodoviário, segurando um copo de isopor com café fraco e mãos trêmulas que mal disfarçavam a ansiedade. Usava terno escuro, bem passado, mas o colarinho estava torto e o olhar perdido. Não parecia alguém indo a uma reunião. Parecia alguém que estava tentando permanecer inteiro.
Quando os olhares se cruzaram, houve um segundo de reconhecimento. Como se os dois soubessem – sem palavras – que já tinham se perguntado, naquela mesma manhã: "Está tudo bem comigo?"
Ele desceu uma estação antes, mas deixou nela um rastro de inquietação. Naquela noite, ela escreveu:
“Hoje encontrei alguém como eu. Não sei o nome, nem a dor, mas reconheci a coragem. A de levantar-se da cama mesmo sem força. A de vestir a vida mesmo quando ela não serve direito. Talvez seja isso que nos salva – a coragem do “quase.”
Crônica 2 – A Moça da Padaria
Ela atendia rápido, com um sorriso treinado. Todos a conheciam pelo bom humor e pela eficiência. Mas, naquela terça, deixou o troco errado e pediu desculpas com a voz falhando. A mulher da fila a olhou nos olhos e perguntou, de verdade:
– Tá tudo bem, moça?
Ela demorou. Fingiu que sim. Depois sussurrou:
– Acho que tô cansada.
Na pressa dos pães e cafés, uma rachadura. E por essa rachadura, um sopro de verdade.
“Eu também”, respondeu a cliente. E aquele “eu também” sustentou a moça até o fim do expediente.
Crônica 3 – O Rapaz da Biblioteca
Ele sempre chegava pontualmente às dez. Escolhia a mesma mesa, no canto esquerdo da sala silenciosa, de onde podia ver o mundo pela janela: carros apressados, mães empurrando carrinhos, gente que parecia saber para onde ia.
Abria um livro grosso – quase sempre o mesmo – e fingia ler. Às vezes passava os olhos pelas páginas, outras apenas as folheava. Mas não estava ali pelos livros. Estava pelo silêncio, pelo refúgio.
Ela notou sua presença nas primeiras semanas, mas só começou a reparar de verdade quando percebeu que ele não sublinhava nada, não anotava, não sorria. Um dia, ao buscar um livro de poesia, viu que ele a observava. Fingiram que não era nada. Mas era.
No sábado seguinte, ela escreveu um bilhete e o deixou dentro de Cem Anos de Solidão:
“Também me sinto perdido às vezes. Não é falta de leitura. É excesso de silêncio.”
Na outra semana, o livro havia sumido da estante. Quando ela se sentou, encontrou um papel dobrado sobre a mesa:
“Obrigada. Alguém me viu.”
Crônica 4 – A Senhora da Sacada
Todo fim de tarde, lá estava ela. Cabelos brancos presos com uma presilha antiga. Sandálias de pano, um copo de suco de caju nas mãos e os olhos voltados para o horizonte que não mudava.
Os vizinhos achavam que ela era solitária. Ninguém a visitava. Mas ela não parecia triste – apenas quieta. Como quem carrega dentro de si um mundo inteiro e já não sente necessidade de explicá-lo.
A mulher que passava com sacolas de mercado começou a desacelerar os passos. Um dia, parou.
– Bonito o céu hoje.
– É. Mas só se a gente parar pra ver.
– Chove amanhã?
– Talvez. Mas hoje ainda é bonito. E isso basta.
Conversaram por dois minutos. Nenhuma frase memorável. Mas, naquela noite, ambas dormiram melhor.
Crônica 5 – A Professora da Sala Vazia
Ela chegava cedo, antes das sete. Acendia as luzes, abria as janelas, ajustava os livros e testava o projetor. Era dessas que colocava o afeto em cada detalhe, mesmo quando ninguém notava. Tinha nos olhos a firmeza de quem já atravessou muitos invernos. E, no coração, uma saudade que não tinha nome.
Ensinava História, mas colecionava silêncios. Nunca falava de si. Um casamento que se desfez, uma filha que foi morar com o pai, uma mãe em outra cidade – cada vez mais esquecida. Tudo isso cabia atrás do giz.
Até que, num dia qualquer, uma aluna esqueceu o caderno. Ela o folheou distraidamente até encontrar a última página, onde leu:
O que eu gostaria de ouvir de um adulto?
A resposta da menina era simples:
“Que não precisa estar tudo bem pra continuar.”
A professora não chorou. Apenas pegou uma caneta e escreveu embaixo:
“Você não está sozinha. Eu também continuo.”
No dia seguinte, a aluna chegou com os olhos mais atentos. A professora sorriu sem dizer nada. Sabiam.
Crônica 6 – O Motorista do Aplicativo
Era tarde da noite quando ela pediu o carro. Tinha saído de uma reunião exaustiva. Queria silêncio. Mas notou, logo ao entrar, uma foto presa no painel: uma menina sorridente, cabelos em tranças. E o broche com o nome: Lara.
Durante o trajeto, ele dirigia com suavidade. O rádio tocava baixinho uma canção antiga. Ela não resistiu:
– Sua filha?
– É. Tem sete anos. Mora com a mãe em outra cidade. Dirijo até tarde pra conseguir vê-la no fim do mês.
Ela se calou. Mas algo nele parecia querer continuar.
– Às vezes, sinto que só dirijo pra preencher o que ficou vazio. A saudade tem esse cheiro estranho de banco de carro e lanche frio.
Ela apenas disse:
– Saudade também me dirige, às vezes.
Ao fim da corrida, deixou um bombom no banco. Esquecido de propósito. Um gesto pequeno, mas que dizia: “eu entendo”.
Crônica Final
Há uma roda invisível girando pela cidade.
Ela não faz barulho. Não apita. Não acende luz. Mas gira. Às vezes devagar, às vezes quase parando.
Nessa roda, não há espetáculos nem manchetes. Há gente comum, com olhares gastos, vontades suspensas e perguntas sem resposta.
Na biblioteca, o rapaz ainda escolhe seu canto e folheia livros que não lê por inteiro. Mas agora, de vez em quando, ergue os olhos e procura um rosto conhecido – alguém que, sem falar, lhe devolveu humanidade com um bilhete esquecido entre páginas.
Na sacada do primeiro andar, a senhora do suco ainda observa o céu. A mulher do mercado passou a parar com mais frequência. Trocou receitas, lembranças e, sem saber, ganhou uma avó emprestada para os dias difíceis.
A professora da escola segue acordando cedo, corrigindo provas, arrumando cadeiras e o projetor. Mas, às vezes, se detém nas entrelinhas das redações, buscando os sinais miúdos de quem também precisa ser visto. Descobriu que ensinar vai além do conteúdo: é escutar o que ninguém diz.
O motorista ainda dirige pelas noites. Agora, com um bombom esquecido no porta-luvas. Um mimo simples, mas que lembra que ele também importa. Que, do banco de trás, alguém viu sua dor e não virou o rosto.
E tem a moça da padaria. Já não pede desculpas por se distrair. Sorri menos, mas com mais verdade. Sabe que está cansada – e isso, de algum modo, a fortalece. Já não finge tanto. Começou a escrever poesias no verso dos pedidos.
O homem da rodoviária nunca mais foi visto por ela. Ainda hoje, toda vez que toma aquele ônibus, seus olhos percorrem a fila, procurando o colarinho torto e o olhar perdido. A vida tem disso: pessoas que, por um instante, quase se encontram... depois somem. E fica a pergunta no ar: Está tudo bem comigo hoje?
Eles não se conhecem. Nunca se sentaram à mesma mesa. Mas, de algum modo, formam um círculo silencioso. Um elo de humanidade discreta, feito de olhares, pausas e gestos que quase ninguém nota.
Todos, em algum momento, se perguntaram:
“Está tudo bem comigo?”
A resposta? Ainda não. Mas estou tentando.
E talvez tentar – juntos, mesmo sem saber – seja a forma mais bonita de dizer que sim.
Silvia Marchiori Buss
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