Como Cavalo Domado

Seu nome era Olavo, mas todos na vila o chamavam de “Seu Lavo”, como se a vida tivesse comido o ‘O’ com a mesma pressa com que lhe levou os sonhos. Morava numa casa simples, cercada por uma cerca de arame e roseiras bravas, com a mulher de sempre, Benedita, e um silêncio que só era quebrado aos domingos, quando os filhos vinham.

Durante a semana, era ele e o rádio. Benedita costurava, sem pressa, no mesmo canto da varanda onde, um dia, ninou os três filhos que agora moravam na cidade — um advogado, uma professora e um gerente de loja. Todos “bem de vida”, como diziam os vizinhos. Mas o orgulho de Olavo vinha misturado com uma espécie de saudade muda, daquelas que não se dizem em voz alta.

Aos domingos, tudo mudava. O cheiro do frango assado tomava a casa, e o velho se barbeava com capricho, vestia a camisa de botões que Benedita passava com vapor e cuidado. Sentava-se à cabeceira da mesa e esperava. Os filhos chegavam, riam alto, traziam netos barulhentos, vinhos caros e histórias de um mundo que ele já não compreendia direito.

— Pai, o senhor precisa sair mais, fazer alguma coisa pra se distrair — dizia a filha, ajustando a gola do casaco de grife.

Ele sorria com os olhos, apenas. Tinha aprendido, com os anos, que certas coisas não se discutem. Era um homem de gestos miúdos, daqueles que respondem com um aceno ou um assovio. Quem o visse não imaginaria o que já havia sido: o garoto que cavalgava livre pelos campos da juventude, que domava potros no grito, que desafiava a vida com as mãos nuas e a alma cheia de esperança.

Mas o tempo, como um domador paciente, lhe foi ensinando os limites. Primeiro, o corpo: as costas que já não aguentavam o peso da enxada. Depois, os sonhos: a fazenda que nunca teve, os caminhos que não percorreu. Por fim, os filhos: que cresceram, partiram, e voltavam apenas aos domingos.

Naquela tarde cinza, depois que a família se foi, Benedita encontrou Olavo no quintal, em silêncio, olhando o velho arreio pendurado no galho de um limoeiro seco.

— Está lembrando do Canela? — ela perguntou, sentando-se ao lado dele.

Ele assentiu, com um leve sorriso nos lábios.

— Aquele bicho era bravo… lembra como demorou pra aceitar o freio?

— Lembro. Mas quando aceitou, virou sombra tua — disse ela, com doçura.

Olavo suspirou, os olhos fixos no horizonte. Depois, murmurou:

— A vida é igual. No começo a gente empina, relincha, tenta escapar de tudo. Mas um dia… um dia a gente aceita o freio.

— E isso é ruim? — Benedita perguntou, ajeitando o chale nos ombros.

— Não sei. Acho que não. Só que às vezes… às vezes eu queria ser o Canela outra vez. Correr sem sela. Sentir o vento, a terra, o desatino.

Ela sorriu, sem pressa.

— Mas mesmo domado, ele era bonito, lembra? Forte. Firme. Só andava mais devagar.

Ele riu. Riu com vontade, riu com o corpo todo. E, por um instante, não era um velho sentado no quintal — era o rapaz que domava cavalos e acreditava que podia domar o mundo.

Depois, entraram. A chaleira apitava no fogão. E a vida, como sempre, continuava sem fazer alarido.


Silvia Marchiori Buss

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