Brinquedos Quebrados
Cuidar de si, hoje, é um ato de coragem.
Vivemos numa vitrine permanente. Expostos, julgados, comentados — como se a
vida fosse um programa em que todos têm direito a voto, mas poucos têm empatia.
E, sem perceber, vamos deixando que a opinião alheia arranhe nossa superfície,
que o olhar do outro nos diga quem somos, como devemos ser, o que vale ou não
em nós.
E quando damos por conta… já
não tocamos mais aquela música que nos fazia únicos.
Estamos ali, na prateleira dos brinquedos quebrados.
Mas não porque o tempo nos
desgastou — o tempo é sábio, ele amadurece, ensina, transforma. O que nos
quebra são as palavras afiadas ditas sem cuidado. São os olhares que diminuem,
os julgamentos que se infiltram feito ferrugem na alma.
É o algoritmo impiedoso que nos compara, que sugere que sempre há alguém
melhor, mais bonito, mais produtivo, mais amado.
E se não cuidamos… Nos
entregamos.
Nos deixamos desmontar peça por peça, até que só reste o silêncio onde antes
havia sonho.
Por isso, precisamos ser
artesãos de nós mesmos.
Precisamos aprender a nos “colar” com delicadeza, a reforçar nossas quinas, a
aceitar as fissuras como marcas de estrada.
Precisamos, sobretudo, não permitir que a crueldade disfarçada de opinião tenha
mais peso do que a verdade silenciosa do nosso coração.
Não somos brinquedos quebrados
— somos inteiros, mesmo quando trincados.
E se alguém quiser nos quebrar, que encontre em nós a firmeza de quem já
aprendeu a se remontar.
Cuide-se.
Não se compare.
Não se abandone.
Você não foi feito para caber
em caixas de julgamento, nem para agradar algoritmos.
Você foi feito para viver. Para tocar sua música. E ela é só sua.
Silvia Marchiori Buss
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