Batom Vermelho

Ninguém dava nada por Odete.

Nem o balconista do armarinho da esquina, que sempre errava o troco e a chamava de “minha senhora”, com um desdém automático. Nem a vizinha do 402, que fazia cara de pena sempre que via Odete com a sacola retornável da feira e os cabelos presos num coque desalinhado. Nem mesmo o gato do condomínio, que preferia dormir na porta da Marilza, do 502, só porque ela usava Chanel número 5.

Odete era, no máximo, uma sombra discreta no corredor do prédio. Quarenta e sete anos, pele muito pálida, dentes pequenos demais, quadris grandes demais. Usava bege, cinza e, às vezes, ousava com um marrom triste. Não sorria muito, mas também não reclamava. Era invisível com educação.

Até que, num sábado qualquer, Odete decidiu passar o batom vermelho.

Não foi um ato planejado. Foi um surto de revolta no meio da sessão de congelados do supermercado. Alguém pegou a última lasanha quatro queijos e Odete, num impulso inexplicável, olhou para a câmera de segurança como se fosse uma plateia invisível e pensou: Chega!

Voltou pra casa, revirou a gaveta esquecida do banheiro e achou o batom – um presente de aniversário de anos atrás, dado por uma colega de trabalho que dizia que Odete precisava “ousar mais”. Ousar? A palavra parecia até palavrão em sua boca.

Mas ela passou.

Primeiro, com insegurança. Depois, com firmeza. E, quando terminou, não era mais Odete. Era uma mulher de batom vermelho.

Saiu pra rua como quem invade o mundo. O porteiro se engasgou com o café. Um adolescente ofereceu carona na garupa da bicicleta. Até o gato do condomínio roçou nas pernas dela com um miado carente.

Na padaria, pediu um pão na chapa com tanta autoridade que o atendente limpou o balcão e deu um guardanapo dobrado em forma de coração. Um senhor de chapéu se atrapalhou com os trocados só pra continuar olhando. E ela... só sorriu – aquele sorriso de canto de boca que só batom vermelho sustenta.

Claro que teve quem cochichasse. Marilza, do 502, ligou pra outra vizinha:
– Odete tá namorando? Só pode. Tá com a cara brilhando e uma arrogância que nunca teve.
– Aposto que tá tomando uns remedinhos – respondeu a outra, entre a inveja e a mágoa.

Odete não ligava. Descobriu que, com batom vermelho, até o espelho respondia diferente. Não via mais a falta de cintura, nem o pé chato. Via atitude. Via presença. Via o tipo de mulher que atravessa a rua – e o mundo – para buscar o que é seu. Mesmo que seja só uma lasanha quatro queijos.

E naquela noite, antes de dormir, colocou o batom mais uma vez. Só pra escovar os cabelos.

Porque era preciso lembrar: o poder não estava nos outros...Estava ali, na sua própria boca. 

 


Silvia Marchiori Buss

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