Assim Como as Marés

O vento noturno sussurra segredos na areia molhada enquanto Mariana caminha descalça pela praia, os pés marcando um rastro tênue que o mar insiste em apagar. Há semanas, ela volta a este mesmo trecho de costa, buscando respostas nas oscilações do mar – tal qual seu próprio coração, que ora se agita em tempestade, ora se recolhe calmo.

Desde a partida de Lucas, tudo nela ficou na corda bamba: as lembranças pulsam como conchas que batem umas nas outras; o cheiro de sal e brisa lembra o dia em que prometeram nunca mais se afastar. Ele lhe deixara apenas uma carta – palavras tão sinceras quanto cruéis – e a promessa de regressar “quando as marés trouxessem a paz de volta ao meu peito”.

Numa noite de luar difuso, Mariana vê, ao longe, uma silhueta solitária caminhando em sua direção. Cada passo dele afunda um pouco na areia úmida, como se pagasse um preço para reencontrá-la. O coração dela dispara, lembrando que o mar pode trazer máscaras febris e ventos traiçoeiros. Mesmo assim, ela fica ali, parada, permitindo que as águas do passado lavem sua hesitação.

Lucas ergue a mão, hesita e depois solta um suspiro que parece ecoar por todo o oceano.
– Vim tentar decifrar minhas próprias marés – diz ele, a voz embargada pela emoção. – Saí em busca de mim mesmo e descobri que não há porto sem sua presença.

Mariana cerra os punhos, como quem tenta conter a dor que insiste em renascer.
– E se você se perder de novo? – pergunta, com a voz rouca de quem aprendeu a temer cada onda.

Ele sorri, num gesto tão suave quanto as marolas que beiram seus tornozelos.
– Prometo ficar. Talvez eu seja vilão das minhas próprias histórias, mas aprendi que seu amor é a maré que me mantém aqui, firme, mesmo quando o mundo me afasta.

O mar cobre seus pés, envolve seus corpos num frescor salino que arde nos sentidos. Entre a incerteza e o desejo, eles se abraçam, confiando que, assim como as marés, o amor pode subir e descer – mas nunca cessar por completo. E ali, com o céu testemunhando, descobrem que basta coragem para permanecer contra a corrente.




Silvia Marchiori Buss



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