As Gavetas da Vida

A vida pode ser comparada a uma cômoda de madeira cheia de surpresas, que nos acompanha por anos: silenciosa, resistente, marcada por arranhões que o tempo fez questão de deixar à mostra. Dentro dela, guardamos tudo: memórias, medos, cartas que nunca enviamos, desejos que um dia tivemos coragem de confessar apenas a nós mesmos. E, como qualquer móvel antigo, há gavetas que deslizam com facilidade… e outras que exigem força, paciência ou até coragem para abrir.

Algumas se abrem quase sozinhas. Basta um cheiro, uma música, uma tarde nublada, e pronto: a gaveta da infância se escancara. De lá, saltam risos antigos, vozes que já não ouvimos mais, um par de sapatos minúsculos, uma figurinha colada num caderno. A nostalgia é rápida e gentil — vem, nos toca os ombros e parte sem exigir demais.

Mas há aquelas outras... as que rangem, emperram, que parecem coladas com uma cola invisível. São gavetas que guardam perdas, escolhas difíceis, o nome de alguém que nunca dissemos em voz alta. Quando finalmente conseguimos abrir uma delas, a surpresa pode ser amarga ou doce — mas, quase sempre, reveladora. Porque, nessas profundezas, também mora quem somos — não apenas quem mostramos ser.

E tem as que nunca abrimos. Por medo, por preguiça, por pensarmos que já sabemos o que há dentro. Engano. A vida, essa artista discreta, adora esconder suas pérolas atrás de embalagens comuns. O presente mais inesperado pode estar guardado numa gaveta esquecida, entre um velho recibo e um retrato em preto e branco.

Por isso, de vez em quando, é bom sentar-se diante da cômoda da vida e, sem pressa, experimentar cada puxador. Algumas gavetas podem trazer lágrimas, outras, gargalhadas. Há as que nos lembram de quem fomos; as que nos empurram para quem ainda podemos ser. Nenhuma delas está ali por acaso.

Viver, talvez, seja isso: abrir gavetas, remexer lembranças, dobrar de novo as esperanças e descobrir — entre papéis amarelados e cheiros antigos — que ainda há espaço para guardar o que está por vir.

Afinal, a vida não para de nos surpreender. E sempre cabe mais uma história numa gaveta que pensávamos cheia.

Silvia Marchiori Buss

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