Âncora da Vida

Há pessoas que são âncoras. Não aquelas que nos prendem ou nos impedem de navegar – mas as que nos dão base, que nos mantêm firmes mesmo em alto mar. Gente que, só por existir, dá sentido ao porto e ao horizonte. Que nos sustenta nas tempestades e nos relembra que, apesar das ondas, ainda pertencemos a algum lugar.

Quando essa âncora se vai, parece que o mar nos engole. O barco continua, é verdade – ainda há filhos, netos, compromissos, paisagens ao redor. Mas falta o ponto de retorno. A certeza de que, por mais longe que se vá, existe alguém à espera. Perder essa pessoa é perder o eixo invisível da bússola que nos guiava.

E por mais amor que haja ao redor – e há - nenhum amor substitui o da âncora. Porque ela era feita da mesma matéria que o nosso íntimo.

Era a companhia que sabia o que não dizíamos, o silêncio que nos acolhia sem precisar ser explicado. Era o chão dentro do coração.

Há dias em que conseguimos fingir uma esperança, acreditar em reencontros, em outras dimensões, em eternidades possíveis. Em outros, tudo parece vago, como se o universo tivesse nos deixado à deriva. E nesses dias, o peito vira mar revolto.

Mas talvez, com o tempo, a âncora não esteja mais lá no fundo, parada.

Talvez ela siga conosco de outra forma: como memória que nos orienta, como presença que o tempo não consegue apagar.

Talvez a âncora seja isso: marcar tão profundamente o nosso casco, que mesmo depois da partida, seguimos flutuando com um pedaço dela dentro de nós. E mesmo que o porto pareça longe...ainda navegamos, porque um dia, quem sabe – talvez no fim da viagem – reencontraremos o lugar de onde viemos.

E ela estará lá, onde sempre esteve: na ausência daquilo que fomos juntos.

 

Silvia Marchiori Buss

 

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