A Serva de São Bento

Dona Jurema morava a exatas cinquenta e três passadas da porta lateral da Igreja de São Bento — ela contava todos os dias, com seus chinelos de lã rosa e um terço pendurado no punho. Usava sempre vestidos estampados com flores miúdas - de preferência roxas ou verdes, "cores de respeito", dizia ela -, um casaquinho de crochê que nunca combinava com nada e uma bolsa de palha com santos presos com alfinetes — Nossa Senhora, São José, Santa Terezinha e um São Jorge que vivia despencando.

Seu cabelo era preso num coque firme, sustentado por três grampos e uma fé inabalável. O batom, sempre cor de vinho, destoava do resto, mas era seu toque de vaidade — “um sinal de que estou viva”, explicava às fofoqueiras de plantão.

Mas Jurema não era uma beata qualquer. Não. Ela era A beata. A zeladora, a organizadora dos bingos, a dama do altar, a madrinha do coral - mesmo desafinando- a defensora dos santos, e a sombra constante do Santo Padre, o Padre Alberto, homem calmo e franzino que já não sabia mais se rezava missa ou se pedia licença a Jurema para usar o altar.

— Padre, o senhor deixou a estola torta de novo. — Dizia ela, ajeitando o pano como quem corrige o uniforme de um menino.

— Ah, sim, “ irmã Jurema”... — respondia ele, com a paciência de Jó e o receio de um seminarista em apuros.

Dona Jurema cuidava da igreja com um zelo que beirava a obsessão. Enxugava cada banco com álcool e oração. Polia os castiçais como quem depõe relíquias. Até o sino ela tentou subir pra tocar uma vez, mas ficou presa na escada e teve que ser resgatada por dois coroinhas e um bombeiro.

Enquanto isso, seu marido, o pacato Seu Osório, vivia esquecido entre a chaleira, a cadeira de balanço e as batatas que plantava no quintal. Dizem que um dia ele tentou conversar:

— Jurema, tu te lembras de mim?

Ela olhou pra ele como quem encara um espírito desconhecido e disse:

— Agora não, Osório, tenho que trocar as flores da santa.

O pobre homem virou lenda viva no bairro. "O viúvo de esposa viva", diziam. Mas, resignado, ia todo domingo à missa, sentava-se no último banco e cochilava entre o ofertório e o sermão, como quem apenas aguardava o almoço.

A tragédia, com pitadas de riso, aconteceu num domingo de procissão. Dona Jurema, vestida com um hábito improvisado - uma túnica branca com cinto de corda e véu de cortina - decidiu liderar a caminhada de fé. Empunhava uma imagem de São Bento de um metro e meio, equilibrada nos braços como se fosse criança recém-nascida.

O problema é que, ao dobrar a esquina da padaria, o salto da sua sandália - ela quis parecer mais elegante - cedeu, a imagem tombou para frente e, num efeito dominó, derrubou a primeira fila de fiéis, o carrinho de pipoca do Seu Rubão e uma idosa que fazia tricô na calçada.

Resultado: três torções leves, cinco queixas no grupo da paróquia, uma promessa de nunca mais usar salto e um novo apelido: “Santa Jurema das Quedas”.

No fim, Padre Alberto, com um sorrisinho de canto e as mãos cruzadas nas costas, disse apenas:

— Dona Jurema, minha filha, até os santos precisam de descanso.

Ela respondeu, entre resmungos e fitas de cetim:

— O senhor descansa, padre. Eu ainda tenho que limpar os bancos da nave lateral. São Bento merece.

E lá se foi ela, descalça, com o coque torto e o terço no punho — símbolo vivo da devoção... e do caos santo.



Silvia Marchiori Buss

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