Reorganizando os Dias
A casa não ficou mais silenciosa.
Ela ficou surda.
Dora sentia que o tempo tinha perdido a compostura desde que ele se foi. Não o tempo dos relógios — esses continuavam batendo com a mesma teimosia de sempre —, mas o tempo dentro dela, o que antes dançava leve com as manhãs e ria alto com os pássaros na varanda hoje não existia mais.
Ela sempre foi professora de língua portuguesa, dessas que corrigem mentalmente placas de rua e escrevem bilhetes com vírgulas nos lugares certos. Amava ensinar. Mais ainda, amava ver a faísca nos olhos de um aluno quando compreendia um poema difícil. Dedicou décadas à sala de aula, à escola pública, às reuniões pedagógicas, aos cafés apressados no recreio. Quando se aposentou, sentiu um pequeno medo do vazio, mas ele — Luiz — estava lá, pronto para preenchê-lo com passeios pela cidade, tardes de leitura em dupla, receitas improvisadas e risadas que ainda ecoam nos azulejos da cozinha.
O dia da morte de Luiz foi um desses que a gente não antecipa nem em pesadelo. Ele teve um mal súbito no jardim, onde plantava pimenteiras com dedos cuidadosos. Ela correu, gritou, se ajoelhou na grama ainda úmida da madrugada. A cabeça dele pesava em seu colo e os olhos, que tanto diziam sem palavras, já não respondiam.
Nos dias que se seguiram, Dora não dormia. Não comia. Rejeitava as visitas com um aceno leve pela fresta da porta. Os filhos, adultos e bem-intencionados, a cercavam de cuidados, mas o que ela precisava não era de cuidados — era de sentido.
Os meses passaram como folhas arrastadas por um vento sem origem. Dora descobriu que o luto tem várias formas e que nenhuma delas se curva à lógica. Chorava vendo propagandas de margarina. Sorria ao lembrar da piada ruim que ele contava todo 21 de junho, como se fosse a primeira vez.
Começou, aos poucos, a reorganizar os dias.
Não com a intenção de superá-lo — essa palavra lhe parecia uma ofensa —, mas de acolher sua ausência. Aprendeu a fazer café só para uma xícara. Escolheu outra cadeira para sentar- se na varanda. Voltou a escrever em um caderno antigo que encontrou numa gaveta, um presente dele, com capa de couro e páginas ainda em branco.
Não se tratava de recomeço. Não se tratava de cura.
Era mais como arrumar a estante depois de um terremoto. Alguns livros caíram, outros se perderam, mas ali, entre o pó e o desalinho, ainda havia espaço para beleza.
Dora não voltou a ser a mesma. Também não quis ser. Descobriu, com o tempo, que viver com a dor não era negar o amor vivido, mas uma forma de honrá-lo.
E assim, sem pressa e sem promessas, reorganizou seus dias.
Um depois do outro.
Ela ficou surda.
Dora sentia que o tempo tinha perdido a compostura desde que ele se foi. Não o tempo dos relógios — esses continuavam batendo com a mesma teimosia de sempre —, mas o tempo dentro dela, o que antes dançava leve com as manhãs e ria alto com os pássaros na varanda hoje não existia mais.
Ela sempre foi professora de língua portuguesa, dessas que corrigem mentalmente placas de rua e escrevem bilhetes com vírgulas nos lugares certos. Amava ensinar. Mais ainda, amava ver a faísca nos olhos de um aluno quando compreendia um poema difícil. Dedicou décadas à sala de aula, à escola pública, às reuniões pedagógicas, aos cafés apressados no recreio. Quando se aposentou, sentiu um pequeno medo do vazio, mas ele — Luiz — estava lá, pronto para preenchê-lo com passeios pela cidade, tardes de leitura em dupla, receitas improvisadas e risadas que ainda ecoam nos azulejos da cozinha.
O dia da morte de Luiz foi um desses que a gente não antecipa nem em pesadelo. Ele teve um mal súbito no jardim, onde plantava pimenteiras com dedos cuidadosos. Ela correu, gritou, se ajoelhou na grama ainda úmida da madrugada. A cabeça dele pesava em seu colo e os olhos, que tanto diziam sem palavras, já não respondiam.
Nos dias que se seguiram, Dora não dormia. Não comia. Rejeitava as visitas com um aceno leve pela fresta da porta. Os filhos, adultos e bem-intencionados, a cercavam de cuidados, mas o que ela precisava não era de cuidados — era de sentido.
Os meses passaram como folhas arrastadas por um vento sem origem. Dora descobriu que o luto tem várias formas e que nenhuma delas se curva à lógica. Chorava vendo propagandas de margarina. Sorria ao lembrar da piada ruim que ele contava todo 21 de junho, como se fosse a primeira vez.
Começou, aos poucos, a reorganizar os dias.
Não com a intenção de superá-lo — essa palavra lhe parecia uma ofensa —, mas de acolher sua ausência. Aprendeu a fazer café só para uma xícara. Escolheu outra cadeira para sentar- se na varanda. Voltou a escrever em um caderno antigo que encontrou numa gaveta, um presente dele, com capa de couro e páginas ainda em branco.
Não se tratava de recomeço. Não se tratava de cura.
Era mais como arrumar a estante depois de um terremoto. Alguns livros caíram, outros se perderam, mas ali, entre o pó e o desalinho, ainda havia espaço para beleza.
Dora não voltou a ser a mesma. Também não quis ser. Descobriu, com o tempo, que viver com a dor não era negar o amor vivido, mas uma forma de honrá-lo.
E assim, sem pressa e sem promessas, reorganizou seus dias.
Um depois do outro.

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