Queria Ser Uma Montanha
Daquelas antigas, de alma rochosa e silêncios longos. Ser cume, ser pedra, ser a lentidão que observa sem pressa. Talvez assim eu entendesse melhor o tumulto lá embaixo — as buzinas que se confundem com gritos, os rostos que se esbarram sem se ver, os afetos que se perdem entre atalhos de raiva e pressa.
Do alto, talvez tudo fizesse mais sentido. Ou talvez não
fizesse nenhum — mas ao menos haveria distância suficiente para não me doer
tanto a desordem. Porque aqui, onde tudo acontece no mesmo nível, onde os
choques são corpo a corpo, é difícil respirar. As pessoas se atropelam com
palavras, se ferem com pequenas escolhas, e seguem — como se nada pudesse ser
feito. Uns se afinam com a aspereza, parecem até prosperar nela. Outros apenas
tentam não se desfazer por dentro.
Talvez ser montanha fosse uma forma de contenção. Ser
fronteira, ser divisão natural entre o que ruge e o que sussurra. Quem sabe,
com sorte, até um abrigo. Não para salvar ninguém, porque isso seria pretensão.
Mas para oferecer sombra. Para dar uma trégua. Para servir de silêncio enquanto
o mundo se esfarela em discursos.
Ser montanha seria estar fora da pressa, da lógica do
empurrão. Ver o tempo escorrer como um fio de água que se infiltra na pedra e
ali repousa, sem urgência. Talvez só as montanhas consigam amar o mundo sem se
ferir demais com ele. Elas não tentam consertá-lo. Só o sustentam, em silêncio.
E há dias em que ser pedra é tudo o que se pode desejar.
Não por dureza, mas por firmeza. Por resistência quieta. Por saber que, apesar
de tudo, ainda se pode sustentar um céu.
Silvia Marchiori Buss
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