Quando a Saudade Muda de Margem

Ficamos aqui, entre paredes conhecidas, andando pelos mesmos cômodos, sentindo a ausência latejar nos espaços que antes eram preenchidos por gestos simples. E eles, para onde foram... Em que dimensão andam agora os que amamos e perdemos...

É uma pergunta que pesa mais do que qualquer resposta.
Não é apenas a saudade que dói. É a dúvida. A dúvida se, do outro lado – seja ele qual for –, também se sentem assim: incompletos, inquietos, saudosos.
Porque seria uma dor imensa saber que sentem saudade. Uma dor que transbordaria do que já é quase insuportável. Imaginar que, lá onde estão, carregam a mesma falta, o mesmo nó na garganta, o mesmo impulso de buscar o que já não podem tocar – isso desmonta qualquer armadura.
Seria mais fácil acreditar que partiram leves, desprendidos de nós, como se a vida aqui fosse uma casa que, ao ser deixada para trás, logo perde o cheiro, a cor, a lembrança. Talvez essa seja a esperança secreta dos que ficam: que eles tenham encontrado, se não a felicidade, pelo menos o alívio de não nos carregar como peso.
Mas o amor não se desfaz tão fácil, sabemos. Não se dobra em uma gaveta para ser esquecido. Se aqui, mesmo com tantos dias tentando, ainda amamos com a mesma urgência e falta, porque lá seria diferente...
Às vezes, enquanto a tarde se dobra em silêncios longos, a gente sente como se eles nos tocassem por dentro, de um jeito que não se sabe explicar. E é nesses momentos que a dúvida se abre como um abismo: seria saudade deles... Ou apenas a nossa própria dor ecoando em nós mesmos...
Talvez nunca saibamos.
O que resta é caminhar carregando essa dúvida como quem carrega uma pedra lisa no bolso: às vezes apertada na mão. Um lembrete silencioso de que amar é, também, aceitar que certas respostas moram num lugar onde nossas perguntas jamais alcançarão.
E enquanto o tempo inventa formas de seguir, nós seguimos olhando para o céu, para o vento, para a vida – torcendo, em segredo, para que, se houver saudade do outro lado, ela seja leve como um sopro. E que, de alguma forma que não entendemos, nossa presença tenha sido, e ainda seja, um pouco tranquila para quem precisou partir.

Silvia Marchiori Buss

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