Onde Você Está...

Ele acorda todos os dias antes da cidade, como se ainda tivesse algo para preparar. O café é o mesmo — forte, silencioso. A casa inteira guarda seus vestígios: uma xícara que ninguém mais toca, a almofada que ele não permite que arrumem, o livro com a folha marcada na página de sempre.

As ruas já mudaram tantas vezes de nome, de cor, de cheiro, mas ele ainda percorre aquelas mesmas esquinas, os olhos varrendo vitrines, sacadas, janelas. Como se a qualquer instante ela fosse surgir, soprada pelo acaso.

"Você gosta de lilases", ele pensa, sempre que passa pela floricultura da esquina. Ainda compra um buquê de vez em quando, e deixa num banco qualquer do parque. Um gesto tolo, talvez. Ou ritual. Ou saudade que vaza em forma de pétala.

Às vezes, escreve cartas que nunca envia. Palavras simples, só para não esquecer como é conversar com ela:

"Hoje vi uma moça de cabelos encaracolados descendo do bonde. Usava um casaco amarelo, como o seu. Meu coração tropeçou nela por um segundo."

"Você se lembra da padaria da Rua das Laranjeiras? O dono ainda tem aquele bigode torto. Mas o sorriso… o sorriso está gasto."

"Se eu fechasse os olhos agora, você viria?"

Os amigos dizem que ele deveria seguir em frente. Mas ele já está em frente. Sentado, parado, inteiro à espera. Porque o amor verdadeiro tem dessas coisas: não sabe ser ausência, nem sabe desistir.

Na estante da sala, ao lado de um retrato borrado pelo tempo, há um bilhete antigo, quase apagado, com uma caligrafia curva, firme:

"Volto logo."

Ele ainda acredita.

E todas as noites, antes de apagar a última luz, pergunta baixinho ao escuro:

"Onde você está?"

A casa não responde. Apenas respira junto com ele, no mesmo compasso antigo de quem espera sem pressa.
Na penumbra, o silêncio se acomoda ao seu lado como uma presença — não a dela, mas o contorno que ela deixou no mundo.

Lá fora, a cidade dorme.
Cá dentro, ele vigia.
Não por não aceitar a ausência, mas porque aprendeu a amar mesmo sem o tempo, mesmo sem retorno, mesmo sem o depois.

E, quem sabe, num desses dias, quando o vento mudar de rumo ou uma lembrança decidir se materializar,
ela entre pela porta como se tivesse saído apenas para comprar pão.

Até lá, ele espera.
Não porque precisa.
Mas porque ela prometeu.



Silvia Marchiori Buss

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