O Outro Lado da Dor
Ninguém conta, mas existe um outro lado da dor. Não é um jardim florido, nem uma lição que se aprende com os olhos marejados e o peito cheio de frases feitas. O outro lado da dor é um território estranho, feito de silêncio e rearranjo.
A princípio, tudo é ruína:
pedras caídas, móveis fora do lugar, palavras que não servem mais. Depois, sem
que a gente perceba, uma poeira fina começa a assentar sobre os escombros. Não é
paz. Não é cura. É apenas o peso daquilo que não pode mais ser carregado em
gritos ou lágrimas. É um cansaço que lentamente vai redesenhando o espaço
dentro da gente.
No outro lado da dor, o tempo
se movimenta de maneira diferente. Não é o mesmo tempo dos relógios. É um tempo
disforme, que avança e recua sem aviso, feito uma maré indecisa. em certos
dias, parece que nada foi vivido – tudo é pedra, tudo é vazio. Em outros,
surgem pequenos gestos quase imperceptíveis: a vontade de abrir uma janela, de
responder uma carta antiga, de arrumar uma gaveta, organizar os livros...
Não se trata de vencer a dor. Não
se trata, também, de esquecê-la ou agradecer-lhe a visita. O que acontece,
simplesmente, é que se aprende a conviver com o eco dela. Como quem mora perto do
mar e se acostuma ao som das ondas – mesmo sabendo que o mar pode, a qualquer
momento invadir a casa.
O outro lado da dor não é para
os fortes nem para os fracos. É para os vivos. Para aqueles que, mesmo com as
costuras rasgadas, continuam se movendo de alguma forma, mesmo sem entender
direito para onde.
Não há glória nesse lado. Há apenas
a vida, crua, morna, um pouco amarga - mas ainda vida.
Silvia Marchiori Buss
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