Nós, Rios em Movimento
Nós somos como um rio. Não um rio turístico, desses com margens floridas para visitação, mas um rio real — que escava a terra, se curva, avança, retrocede, arrasta galhos, recolhe folhas secas, transborda, seca, renasce.
Ora estamos aqui, contornando uma pedra, ora estamos lá, atravessando um campo esquecido. E nesse trajeto, que nunca é o mesmo por muito tempo, tocamos margens que nem sempre escolhemos. Há trechos de terreno fértil, onde brotam amizades, ideias, amores inesperados. Há beiras desertas, onde o silêncio é espesso e tudo que se vê são marcas de ausências.
O rio não para. Não por teimosia ou por esperança, mas porque esse é o seu modo de ser: continuar. Mesmo quando tudo ao redor parece querer estagnar. E nós, que somos feitos do mesmo movimento, também seguimos — mesmo nos dias em que avançar parece não fazer sentido.
No início, nossa água é limpa, rápida, quase ingênua. Corremos cheios de força, querendo alcançar o mar sem entender o que isso significa. Mas o tempo — esse afluente antigo — nos torna mais lentos, mais fundos, mais densos. Vamos deixando para trás não apenas o que perdemos, mas também versões de nós mesmos que já não nos servem. O que era rocha se torna leito. O que era margem se desfaz.
A fúria de certas corredeiras nos muda: o que era convicção se transforma em dúvida; o que era medo, em coragem cansada; o que era certeza, em lembrança turva. Já não somos os mesmos ao atravessar o próximo trecho. Talvez nem nos reconhecêssemos se olhássemos para trás.
Nas margens boas, a gente celebra, se banha, planta. Nas ruins, a gente apenas passa. Com o tempo, aprendemos que nem tudo precisa ser vivido em plenitude — há paisagens que são apenas travessia. E há afluentes que chegam sem aviso, mudando nosso curso, diluindo velhas dores, trazendo novas correntes que nos confundem, encantam ou revolvem o fundo.
E, como o rio, carregamos pedaços de cada margem em nossa corrente: um punhado de areia de um amor antigo, o perfume de uma árvore onde descansamos, os cacos de vidro que pisamos sem querer. Tudo vai com a gente, diluído, transformado, esquecido um pouco, lembrado sempre. Às vezes cristaliza em palavras, outras em silêncios.
Há quem tente represar. Quem deseje que o tempo fique contido num reservatório de memórias. Mas mesmo ali, por entre as frestas, escapa uma gota. E é ela que anuncia que ainda estamos vivos.
Ninguém é o mesmo rio duas vezes. Nem o rio. Nem nós. Porque, no fundo, ser rio é isso: estar sempre se tornando.
Silvia Marchiori Buss
Ora estamos aqui, contornando uma pedra, ora estamos lá, atravessando um campo esquecido. E nesse trajeto, que nunca é o mesmo por muito tempo, tocamos margens que nem sempre escolhemos. Há trechos de terreno fértil, onde brotam amizades, ideias, amores inesperados. Há beiras desertas, onde o silêncio é espesso e tudo que se vê são marcas de ausências.
O rio não para. Não por teimosia ou por esperança, mas porque esse é o seu modo de ser: continuar. Mesmo quando tudo ao redor parece querer estagnar. E nós, que somos feitos do mesmo movimento, também seguimos — mesmo nos dias em que avançar parece não fazer sentido.
No início, nossa água é limpa, rápida, quase ingênua. Corremos cheios de força, querendo alcançar o mar sem entender o que isso significa. Mas o tempo — esse afluente antigo — nos torna mais lentos, mais fundos, mais densos. Vamos deixando para trás não apenas o que perdemos, mas também versões de nós mesmos que já não nos servem. O que era rocha se torna leito. O que era margem se desfaz.
A fúria de certas corredeiras nos muda: o que era convicção se transforma em dúvida; o que era medo, em coragem cansada; o que era certeza, em lembrança turva. Já não somos os mesmos ao atravessar o próximo trecho. Talvez nem nos reconhecêssemos se olhássemos para trás.
Nas margens boas, a gente celebra, se banha, planta. Nas ruins, a gente apenas passa. Com o tempo, aprendemos que nem tudo precisa ser vivido em plenitude — há paisagens que são apenas travessia. E há afluentes que chegam sem aviso, mudando nosso curso, diluindo velhas dores, trazendo novas correntes que nos confundem, encantam ou revolvem o fundo.
E, como o rio, carregamos pedaços de cada margem em nossa corrente: um punhado de areia de um amor antigo, o perfume de uma árvore onde descansamos, os cacos de vidro que pisamos sem querer. Tudo vai com a gente, diluído, transformado, esquecido um pouco, lembrado sempre. Às vezes cristaliza em palavras, outras em silêncios.
Há quem tente represar. Quem deseje que o tempo fique contido num reservatório de memórias. Mas mesmo ali, por entre as frestas, escapa uma gota. E é ela que anuncia que ainda estamos vivos.
Ninguém é o mesmo rio duas vezes. Nem o rio. Nem nós. Porque, no fundo, ser rio é isso: estar sempre se tornando.
Silvia Marchiori Buss
Comentários
Postar um comentário