Na Real, O Que Fazemos Aqui

 Somos os únicos seres que sabem que vão morrer. E, ainda assim, sonhamos. Isso já diz muito sobre quem somos.


Enquanto as árvores crescem em silêncio e os rios correm sem se perguntar para onde, nós tropeçamos na própria existência tentando entender o sentido disso tudo. Os outros seres simplesmente são — nós, não. A gente quer ser algo, alguém, deixar um rastro, uma marca, uma história. Talvez seja essa inquietação o que nos separa do resto. Ou talvez seja justamente o que nos aproxima: a vontade de permanecer, de florescer, mesmo sabendo que o tempo nos leva a todos.

Por que estamos aqui? Não há manual de instruções nem resposta fechada. Talvez nem tenha um “porquê” — e isso não tira o brilho da pergunta. Mas se houve mesmo uma escolha, se fomos de fato “escolhidos”, então não deve ter sido pra viver no piloto automático, nem pra seguir um roteiro que não escrevemos.

Talvez a razão esteja no gesto pequeno. Naquilo que só nós podemos fazer: escutar com o corpo inteiro, olhar de verdade, inventar beleza onde só havia rotina, cuidar de outro ser só porque sim. Talvez sejamos o elo entre o visível e o invisível, a ponte entre o mundo que existe e o mundo que ainda pode existir.

Estar aqui é privilégio, mas também é responsabilidade. É menos sobre encontrar um propósito, e mais sobre construí-lo com o que temos — e com o que somos. Porque a vida não precisa de grandes feitos pra ter sentido. Às vezes, só precisa de presença. Da nossa presença.

Não viemos ao mundo para vencê-lo. Viemos para senti-lo — e, se possível, transformá-lo. Mesmo que só um pouquinho. Mesmo que só ao redor.

Silvia Marchiori Buss

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