E O Universo Vai se Equilibrando...

 Enquanto um coração se cala, outro começa a bater. Enquanto olhos se fecham para sempre, outros se abrem pela primeira vez, espantados com a luz do mundo. O universo, esse maestro silencioso, rege o compasso de chegadas e partidas como se cada nota de vida e morte fosse parte de uma sinfonia precisa. E assim, ele se equilibra — não com justiça, não com lógica, mas com uma dança que não pede permissão para continuar.

Nascer é um impacto. Um mergulho abrupto num mundo onde se respira ar, se sente dor, frio, fome, ausência. É um rasgo. Uma travessia de um ventre escuro e seguro para a vertigem da existência. Talvez por isso alguns chorem mais alto ao chegar — como se já soubessem o peso que é viver.

Morrer, por outro lado, é um desaparecer. Um apagar de vela, às vezes com suavidade, às vezes com violência. Para quem fica, é ausência tatuada no tempo. Para quem parte… ninguém sabe. Mas há quem acredite que é também um nascer — em outra frequência, em outra paisagem. E talvez estejam certos. Talvez o lado de lá receba recém-chegados do mesmo modo que este lado recebe os nascidos: com espanto, com ternura, com lágrimas. Lágrimas de reencontro, quem sabe.

A questão é que ambos os extremos — o chegar e o partir — provocam abalos sísmicos em quem ama. Não há manual para nascer, tampouco para morrer. E muito menos para lidar com quem morreu. Ou com quem nasceu.

Porque quem está em luto caminha num campo de estações desreguladas. O outono pode chegar antes da primavera. O inverno pode durar anos. E há dias em que o verão parece ofensa. Falar de equilíbrio quando a alma está partida parece escárnio. Mas o universo não sabe o que é consolo. Ele apenas segue. Equilibra-se como pode, enquanto nós tropeçamos tentando entender onde exatamente começa a dor e onde, se é que existe, ela termina.

Não se perde quem morre, dizem. Mas quem fica, perde o chão. Perde o som de uma risada, o cheiro de um café feito para dois, o silêncio confortável que só a presença de quem amamos sabe deixar. Perde-se em si mesmo, em labirintos que ninguém vê. Só o tempo — esse escultor paciente — vai talhando uma nova forma de presença na ausência.

E, ainda assim, algo dentro de nós segue respirando. Mesmo quando a saudade nos sufoca. Algo resiste. Talvez seja isso que chamam de vida. Talvez seja isso que chamam de amor.

E o universo… segue se equilibrando. Às custas de nossas lágrimas e dos nossos sorrisos.

Silvia Marchiori Buss

 

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