Caixinha de Surpresa

A cada manhã, a vida nos entrega uma caixinha. Pequena, discreta, sem laço nem bilhete. Apenas pousa ali, na soleira do dia, esperando que a abramos.

Às vezes, a tampa resiste. É preciso força, coragem, ou mesmo um pouco de raiva acumulada para vencê-la. E o que salta de dentro não é o que esperávamos: um problema inesperado, uma saudade antiga, uma notícia dura, um silêncio difícil de suportar. Nessas horas, a caixinha parece mais uma armadilha do que um presente. E a gente se pergunta por que, de novo, a surpresa veio embrulhada em dor.

Mas há dias em que a caixa se abre como quem sussurra. Sem esforço, sem alarde. E dentro dela está um gesto de afeto, um encontro improvável, um instante de paz no meio do caos. Um pôr do sol visto por acaso, uma gargalhada partilhada, um café que esquenta mais do que o corpo. Coisas simples que, no fundo, são tesouros.

Nossos dias são assim: feitos de altos e baixos, sorrisos que nascem mesmo depois das lágrimas, e lágrimas que lavam o caminho para novos sorrisos. A vida não promete constância. Ela se move em espirais, em ondas, em ritmos que às vezes não entendemos — mas seguimos, um passo depois do outro, carregando na memória as caixinhas que nos transformaram.

Porque, no fim das contas, o valor não está só no que cada dia traz, mas na forma como decidimos desembrulhá-lo.

Silvia Marchiori Buss

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