Aurora, o Silêncio
Aurora aprendera desde cedo que amor não era um trovão, mas uma brisa contínua. Era filha de uma mulher doce e de um homem de poucas palavras, e cresceu acreditando que as coisas boas da vida vinham devagar, no tempo certo, como o amadurecer de uma fruta ou o desabrochar de uma flor. E assim viveu.
Foi aos trinta anos que encontrou Raul. Nada de fogos, nada de promessas infladas. Ele chegou com calma, olhos de quem entende o silêncio, mãos firmes de quem sabe amparar. Juntos, construíram um cotidiano repleto de gentilezas e rituais: o café passado com cuidado, o jornal lido a dois, o passeio de mãos dadas nas tardes de domingo. Amor de costura fina, ponto a ponto, sem pressa.
Viveram assim por décadas. E, quanto mais o tempo passava, mais Aurora temia.
Não pela morte em si, que para ela era como o inverno – uma estação inevitável. Mas pelo que vinha depois. Aurora temia ser a última. Sentia na pele, no sopro do vento, no olhar cansado de Raul, a aproximação do fim. Rezava em silêncio, não por mais tempo, mas por coragem. E por piedade.
Quando Raul partiu – numa noite calma, entre um suspiro e o outro – Aurora não chorou. Sentou-se ao lado do corpo ainda quente, segurou sua mão, beijou-lhe a testa e sussurrou:
“Eu sabia que viria antes de mim. E agora, o que faço com tudo isso que ficou...?”
Nos dias que se seguiram, Aurora se vestiu de presença. Consolou amigos, agradeceu vizinhos, acenou do portão. Mas, por dentro, era a ausência que lhe vestia os ossos. Era só silêncio. E uma culpa crescente: agora era ela quem restava. Ela quem ocupava a casa vazia. Ela quem era a lembrança viva de um amor interrompido.
O medo de ser um fardo começou a crescer. Imaginava os olhares piedosos, os abraços contidos, a família dividindo o luto em turnos.
“Aurora está bem...”, diriam.
E ela responderia sempre o mesmo:
“Estou.”
Mas estaria mesmo...?
Foi então que Aurora tomou uma decisão silenciosa. Não por desespero, mas por lucidez. Entendeu que podia desaparecer antes que a vida impusesse outro papel: o de deixar dor quando partisse. Preferia ser ausência em vida a ferida em morte.
Certa manhã, ao despertar, fez café como sempre, varreu o quintal, olhou para o retrato de Raul na estante. Sorriu de leve. E partiu.
Sem endereço, sem malas, sem bilhetes.
Só uma xícara esquecida sobre a mesa, ainda quente. Um vaso de violetas regado. Uma casa limpa, em paz.
Aurora não queria ser lembrada pelo fim. Queria que a lembrança dela fosse leve, como brisa. Que não deixasse espinhos, nem velas, nem flores tristes. Partiu com a esperança de que, talvez, em algum lugar entre o céu e o tempo, Raul estivesse esperando.
E quem sabe, quando o vento passa mais doce por entre as árvores, ou quando a luz da manhã entra mais macia pela janela, seja Aurora que esteja ali – dizendo, com sua calma de sempre:
“Eu só fui antes. E levei comigo só o que era amor.”
Foi aos trinta anos que encontrou Raul. Nada de fogos, nada de promessas infladas. Ele chegou com calma, olhos de quem entende o silêncio, mãos firmes de quem sabe amparar. Juntos, construíram um cotidiano repleto de gentilezas e rituais: o café passado com cuidado, o jornal lido a dois, o passeio de mãos dadas nas tardes de domingo. Amor de costura fina, ponto a ponto, sem pressa.
Viveram assim por décadas. E, quanto mais o tempo passava, mais Aurora temia.
Não pela morte em si, que para ela era como o inverno – uma estação inevitável. Mas pelo que vinha depois. Aurora temia ser a última. Sentia na pele, no sopro do vento, no olhar cansado de Raul, a aproximação do fim. Rezava em silêncio, não por mais tempo, mas por coragem. E por piedade.
Quando Raul partiu – numa noite calma, entre um suspiro e o outro – Aurora não chorou. Sentou-se ao lado do corpo ainda quente, segurou sua mão, beijou-lhe a testa e sussurrou:
“Eu sabia que viria antes de mim. E agora, o que faço com tudo isso que ficou...?”
Nos dias que se seguiram, Aurora se vestiu de presença. Consolou amigos, agradeceu vizinhos, acenou do portão. Mas, por dentro, era a ausência que lhe vestia os ossos. Era só silêncio. E uma culpa crescente: agora era ela quem restava. Ela quem ocupava a casa vazia. Ela quem era a lembrança viva de um amor interrompido.
O medo de ser um fardo começou a crescer. Imaginava os olhares piedosos, os abraços contidos, a família dividindo o luto em turnos.
“Aurora está bem...”, diriam.
E ela responderia sempre o mesmo:
“Estou.”
Mas estaria mesmo...?
Foi então que Aurora tomou uma decisão silenciosa. Não por desespero, mas por lucidez. Entendeu que podia desaparecer antes que a vida impusesse outro papel: o de deixar dor quando partisse. Preferia ser ausência em vida a ferida em morte.
Certa manhã, ao despertar, fez café como sempre, varreu o quintal, olhou para o retrato de Raul na estante. Sorriu de leve. E partiu.
Sem endereço, sem malas, sem bilhetes.
Só uma xícara esquecida sobre a mesa, ainda quente. Um vaso de violetas regado. Uma casa limpa, em paz.
Aurora não queria ser lembrada pelo fim. Queria que a lembrança dela fosse leve, como brisa. Que não deixasse espinhos, nem velas, nem flores tristes. Partiu com a esperança de que, talvez, em algum lugar entre o céu e o tempo, Raul estivesse esperando.
E quem sabe, quando o vento passa mais doce por entre as árvores, ou quando a luz da manhã entra mais macia pela janela, seja Aurora que esteja ali – dizendo, com sua calma de sempre:
“Eu só fui antes. E levei comigo só o que era amor.”

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