As Pílulas Mágicas

Dona Estela morava sozinha num apartamento pequeno, silencioso e arrumado demais para alguém que já teve uma casa cheia

Viúva havia anos, os filhos, crescidos e distantes, seguiam suas rotas – às vezes lembravam do seu aniversário, às vezes não. A televisão era sua companhia, mas o que realmente a mantinha de pé, ela dizia, eram as pílulas mágica.

Chamava assim, com certo humor melancólico, os antidepressivos que tomava todas as manhãs, religiosamente.

- Se não fosse por elas, eu evaporava – dizia à vizinha, com um sorriso curto.

Naquela terça-feira, Estela desceu ao pátio do prédio para arejar um pouco. O céu estava encoberto, e o vento trazia um frio tímido, desses que convidam à introspecção. Sentou-se no banco de cimento perto dos canteiros, ajeitando a manta sobre os ombros. Olhava as plantas com olhos vazios, sem realmente vê-las.

Foi quando Clara apareceu, carregando uma sacola de pão fresco e um brilho curioso nos olhos. Jovem, recém-chegada ao prédio, morava dois andares acima e costumava cumprimentar Estela com um sorriso largo que a senhora achava... esperançoso demais.

— Bom dia, Dona Estela. Friozinho bom, né? — disse, sentando-se ao lado dela sem cerimônia.

Estela respondeu com um aceno e um murmúrio. Clara percebeu o cansaço na voz, a sombra nos olhos.

— A senhora tá bem?

— Ah, minha filha... Estou como sempre. De pé por teimosia. E pelas pílulas mágicas, claro.

Clara riu baixo, sem zombar.

— Pílulas mágicas?

— Os remedinhos. Me ajudam a não evaporar. — respondeu, olhando o céu. — Mas hoje... nem elas deram conta direito. Tem dia que o vazio é mais forte.

Clara ficou em silêncio por um momento. Depois abriu a sacola, tirou um pequeno frasco.

— Trouxe melissa. Gotas. Minha avó usava quando tesava assim, sentindo aquele aperto que remédio algum, cura.

Estela olhou para o frasquinho, depois para os olhos de Clara.

— E isso funciona?

— Não sei se é a melissa ou o que vem com ela..., mas ajuda. — Estendeu o frasco com uma mão e, com a outra, ofereceu algo mais raro — um abraço. — Posso?

Estela hesitou. Fazia tempo que ninguém a tocava com carinho. O vazio pareceu estremecer dentro dela. Então assentiu com a cabeça, baixinho. Clara a envolveu devagar, com gentileza, como quem entende que abraço também é remédio.

E naquele instante, as pílulas mágicas deram lugar a algo mais poderoso: o calor humano, a presença sincera, o cuidado sem compromisso.

Quando se afastaram, Estela enxugou discretamente os olhos.

— Obrigada, minha filha. Hoje... hoje acho que não vou evaporar.

Clara sorriu, segurando sua mão por mais um instante.

— Se a senhora quiser, a gente pode tomar chá juntas, qualquer dia. Tem um monte de ervas lá em casa. E nenhuma exige receita.

Estela riu, dessa vez de verdade. Um riso curto, mas inteiro.

— Acho que vou gostar disso.




Silvia Marchiori Buss

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