Ao Entardecer

Ao entardecer, ela se sentava na varanda de trás, onde o sol costumava pintar de ouro as folhas mais altas do jardim. O mesmo sol que um dia, lá atrás, lhe acordava a pele jovem e o corpo cheio de vontades. Agora, era outro tipo de calor que a tocava — mais brando, quase tímido, como se pedisse licença.

Mirava o céu, que lentamente trocava de cor, e pensava: quando foi que o meio-dia passou tão depressa?

Durante anos, viveu sob o sol do meio-dia. Forte, apressado, sem tempo para contemplações. Era mãe, companheira, profissional, dona de horários, de metas, de urgências. Dormia pouco, corria muito. O mundo girava no compasso da sua energia. Nunca questionou os dias — apenas os preenchia. Pensava que o entardecer era coisa para os outros.

Mas ele veio. Sem anúncio. Chegou com sutilezas: a necessidade de repousos mais longos, as rugas que pareciam mapas de histórias que só ela conhecia, a memória a brincar de esconde-esconde, e um silêncio diferente nas manhãs, quando ninguém mais precisava dela com urgência.

O entardecer não era só a idade. Era uma luz nova sobre tudo.

Às vezes, sentia uma leve vertigem. Como se estivesse na beira de alguma coisa. A beira da noite, talvez. Mas não uma noite escura e cruel. Era uma noite que ela via chegar com curiosidade. Como quem caminha até a beirada do mar e deixa que as ondas toquem os pés. Um pouco fria, um pouco incerta, mas não exatamente assustadora.

Começou a perceber que o entardecer tinha sua beleza própria. As cores eram mais suaves, mas também mais complexas. O céu não era mais azul inteiro — era rosa, lilás, cinza e dourado ao mesmo tempo. E isso, de algum modo, a comovia. Não era uma fase para correr, era uma fase para olhar devagar. Para ver o que tinha deixado escapar.

A dúvida morava ali: o que fazer com o tempo que ainda restava de sol? Esperar a noite quieta, em aceitação plena, ou tentar reinventar o fim do dia com novos tons, outras palavras, outros gestos? Era preciso morrer devagar, ou ainda viver com o pouco que restava de luz?

Na dúvida, ela se permitia apenas estar. Sentava-se na cadeira da varanda e escutava os passarinhos da tarde. Bebia chá em vez de café. Lia poemas em vez de notícias. Saboreava memórias como quem escolhe as melhores frutas do pomar.

E assim, ao entardecer, não buscava mais respostas. Era tarde para certezas. Mas ainda havia tempo para contemplar as cores.

Quando a noite enfim chegasse — e ela sabia que chegaria —, esperava estar olhando o céu, com os olhos ainda cheios de luz.

Porque algumas mulheres não temem o anoitecer.

Apenas aprendem a brilhar no escuro.

 


Silvia Marchiori Buss

 

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