A Velha e o Sapateiro

No fim da Rua das Camélias, espremida entre a farmácia velha e o armazém de ferragens, havia uma pequena sapataria de letreiro desbotado onde se lia, com letras quase apagadas: “Conserta-se o que vale a pena”.

Ali trabalhava Raul, um rapaz de trinta e poucos anos, rosto sereno, olhos escuros que viam fundo e mãos que sabiam dar nova vida a tudo que parecia gasto — botas, chinelos, sapatos de salto quebrado e, dizem, até corações.

Foi num fim de tarde úmido de novembro que Dona Lídia entrou pela primeira vez. Trazia nos olhos o cansaço de quem já vivera muito e com pouca alegria. O corpo, miúdo e encolhido, parecia carregar mais do que os anos podiam explicar. Nos braços, um par de sapatos de salto grosso, antigos, com o couro estourado e as solas quase podres.

— Ainda dá jeito? — perguntou, quase sem esperança.

Raul levantou os olhos devagar e olhou não para os sapatos, mas para a mulher.

— Sempre dá, Dona. Só precisa ver se a senhora ainda quer caminhar com eles.

Ela quase sorriu.

— Já não caminho muito..., mas ainda ando.

E foi assim que começou.

Dona Lídia passou a voltar. No começo, com desculpas: um chinelo com a tira frouxa, uma bota esquecida no armário, um sapato do falecido que ela nem sabia por que guardava. Depois, voltava só para sentar-se na cadeira de palha, perto do balcão.

Falavam pouco. Raul não era homem de conversa fiada. Mas escutava bem, e Dona Lídia logo percebeu que falar com ele era como abrir uma caixa velha sem medo do que havia dentro.

Contava-lhe da juventude em Santa Esmeraldina, dos filhos que foram embora e quase nunca ligavam, do marido que morrera num Natal sem aviso, como se desliga a luz. Contava sem drama, com aquela secura dos que aprenderam a sofrer calados.

— Tem dor que só cura quando a gente cansa dela.

Ou então:

— A senhora fala dos outros, mas parece que esqueceu de si. Quem era a Dona Lídia antes de virar “a viúva do Seu Orlando”?

Essas frases grudavam nela. Voltava para casa e as deixava ecoar pelos cantos da sala, misturadas ao tic-tac do relógio e às lembranças empoeiradas.

Com o tempo, passou a levar comida: um pedaço de torta, um pão de queijo, café forte em garrafinha térmica. Raul aceitava tudo com um aceno leve e um “obrigado” que valia mais que muitos abraços.

Num fim de tarde, enquanto a chuva tamborilava no telhado da sapataria, Lídia perguntou:

— Por que você está aqui, Raul? Um homem como você podia estar em outro lugar.

Ele limpou as mãos num pano, olhou pela janela.

— Já estive em muitos lugares. Já perdi gente, já errei demais, já fugi do que doía. Aqui é o único canto onde ainda escuto a mim mesmo. E a senhora.

Ela baixou os olhos, tocada. Ninguém a escutava há tempos.

O tempo passou como passa para os que sobrevivem. Lento e veloz.

A sapataria continuava sendo um refúgio. Lídia, antes uma mulher curvada pela tristeza, começava a se erguer. Voltou a pintar os cabelos. Um dia apareceu com um lenço vermelho. Noutro, contou que escrevera uma carta para o neto.

— Ele respondeu? — Raul quis saber.

— Ainda não. Mas eu não escrevi para ter resposta. Escrevi para lembrar que ainda sei amar.

Numa manhã de inverno, a sapataria abriu tarde. Lídia estranhou. Raul estava lá dentro, mas sentado, com o rosto pálido.

— Está doente?

Ele sorriu fraco.

— Só cansado. Coisa que passa.

Na semana seguinte, ela levou sopa. E depois um cachecol tricotado por suas mãos — mãos que agora voltavam a servir para algo mais que lembrar.

O tempo, porém, tem seus caprichos. Um dia, Raul não abriu a sapataria. Depois, dois, três. No quarto dia, Lídia foi até o hospital. Soube por um vizinho que ele estava internado, algo no coração.

Foi visitá-lo com passos firmes. Levou flores e um dos sapatos antigos, restaurado por ele.

— Vim te devolver o que você me deu, Raul. Caminho.

Ele riu, mesmo fraco.

— Caminho é bom. Mas só vale se for com alguém por perto.

Raul voltou. Aos poucos, retomou a sapataria. E agora havia duas cadeiras de palha junto ao balcão.

Dona Lídia passou a ser presença certa, parte do lugar. Ganhou um avental, aprendeu a colar solas, a lustrar couro. Mas, mais que isso, aprendeu a ouvir também. Às vezes, quem entrava era ela — com sua história, sua ternura e sua força discreta — quem escutava o outro.

A sapataria virou ponto de encontro. De conserto de sapatos, sim. Mas de afetos também.

E quem passava por ali, talvez não visse mais do que uma velha senhora e um sapateiro jovem, em silêncio, trabalhando. Mas os que viam com o coração sabiam: eram dois sobreviventes amparando-se mutuamente, costurando com amizade o que a vida tentou romper.

No fim da Rua das Camélias, espremida entre a farmácia velha e o armazém de ferragens, havia uma pequena sapataria de letreiro desbotado onde se lia, com letras quase apagadas: “Conserta-se o que vale a pena”.

Ali trabalhava Raul, um rapaz de trinta e poucos anos, rosto sereno, olhos escuros que viam fundo e mãos que sabiam dar nova vida a tudo que parecia gasto — botas, chinelos, sapatos de salto quebrado e, dizem, até corações.

Foi num fim de tarde úmido de novembro que Dona Lídia entrou pela primeira vez. Trazia nos olhos o cansaço de quem já vivera muito e com pouca alegria. O corpo, miúdo e encolhido, parecia carregar mais do que os anos podiam explicar. Nos braços, um par de sapatos de salto grosso, antigos, com o couro estourado e as solas quase podres.

— Ainda dá jeito? — perguntou, quase sem esperança.

Raul levantou os olhos devagar e olhou não para os sapatos, mas para a mulher.

— Sempre dá, Dona. Só precisa ver se a senhora ainda quer caminhar com eles.

Ela quase sorriu.

— Já não caminho muito..., mas ainda ando.

E foi assim que começou.

Dona Lídia passou a voltar. No começo, com desculpas: um chinelo com a tira frouxa, uma bota esquecida no armário, um sapato do falecido que ela nem sabia por que guardava. Depois, voltava só para sentar-se na cadeira de palha, perto do balcão.

Falavam pouco. Raul não era homem de conversa fiada. Mas escutava bem, e Dona Lídia logo percebeu que falar com ele era como abrir uma caixa velha sem medo do que havia dentro.

Contava-lhe da juventude em Santa Esmeraldina, dos filhos que foram embora e quase nunca ligavam, do marido que morrera num Natal sem aviso, como se desliga a luz. Contava sem drama, com aquela secura dos que aprenderam a sofrer calados.

— Tem dor que só cura quando a gente cansa dela.

Ou então:

— A senhora fala dos outros, mas parece que esqueceu de si. Quem era a Dona Lídia antes de virar “a viúva do Seu Orlando”?

Essas frases grudavam nela. Voltava para casa e as deixava ecoar pelos cantos da sala, misturadas ao tic-tac do relógio e às lembranças empoeiradas.

Com o tempo, passou a levar comida: um pedaço de torta, um pão de queijo, café forte em garrafinha térmica. Raul aceitava tudo com um aceno leve e um “obrigado” que valia mais que muitos abraços.

Num fim de tarde, enquanto a chuva tamborilava no telhado da sapataria, Lídia perguntou:

— Por que você está aqui, Raul? Um homem como você podia estar em outro lugar.

Ele limpou as mãos num pano, olhou pela janela.

— Já estive em muitos lugares. Já perdi gente, já errei demais, já fugi do que doía. Aqui é o único canto onde ainda escuto a mim mesmo. E a senhora.

Ela baixou os olhos, tocada. Ninguém a escutava há tempos.

O tempo passou como passa para os que sobrevivem. Lento e veloz.

A sapataria continuava sendo um refúgio. Lídia, antes uma mulher curvada pela tristeza, começava a se erguer. Voltou a pintar os cabelos. Um dia apareceu com um lenço vermelho. Noutro, contou que escrevera uma carta para o neto.

— Ele respondeu? — Raul quis saber.

— Ainda não. Mas eu não escrevi para ter resposta. Escrevi para lembrar que ainda sei amar.

Numa manhã de inverno, a sapataria abriu tarde. Lídia estranhou. Raul estava lá dentro, mas sentado, com o rosto pálido.

— Está doente?

Ele sorriu fraco.

— Só cansado. Coisa que passa.

Na semana seguinte, ela levou sopa. E depois um cachecol tricotado por suas mãos — mãos que agora voltavam a servir para algo mais que lembrar.

O tempo, porém, tem seus caprichos. Um dia, Raul não abriu a sapataria. Depois, dois, três. No quarto dia, Lídia foi até o hospital. Soube por um vizinho que ele estava internado, algo no coração.

Foi visitá-lo com passos firmes. Levou flores e um dos sapatos antigos, restaurado por ele.

— Vim te devolver o que você me deu, Raul. Caminho.

Ele riu, mesmo fraco.

— Caminho é bom. Mas só vale se for com alguém por perto.

Raul voltou. Aos poucos, retomou a sapataria. E agora havia duas cadeiras de palha junto ao balcão.

Dona Lídia passou a ser presença certa, parte do lugar. Ganhou um avental, aprendeu a colar solas, a lustrar couro. Mas, mais que isso, aprendeu a ouvir também. Às vezes, quem entrava era ela — com sua história, sua ternura e sua força discreta — quem escutava o outro.

A sapataria virou ponto de encontro. De conserto de sapatos, sim. Mas de afetos também.

E quem passava por ali, talvez não visse mais do que uma velha senhora e um sapateiro jovem, em silêncio, trabalhando. Mas os que viam com o coração sabiam: eram dois sobreviventes amparando-se mutuamente, costurando com amizade o que a vida tentou romper.

No fim da Rua das Camélias, espremida entre a farmácia velha e o armazém de ferragens, havia uma pequena sapataria de letreiro desbotado onde se lia, com letras quase apagadas: “Conserta-se o que vale a pena”.

Ali trabalhava Raul, um rapaz de trinta e poucos anos, rosto sereno, olhos escuros que viam fundo e mãos que sabiam dar nova vida a tudo que parecia gasto — botas, chinelos, sapatos de salto quebrado e, dizem, até corações.

Foi num fim de tarde úmido de novembro que Dona Lídia entrou pela primeira vez. Trazia nos olhos o cansaço de quem já vivera muito e com pouca alegria. O corpo, miúdo e encolhido, parecia carregar mais do que os anos podiam explicar. Nos braços, um par de sapatos de salto grosso, antigos, com o couro estourado e as solas quase podres.

— Ainda dá jeito? — perguntou, quase sem esperança.

Raul levantou os olhos devagar e olhou não para os sapatos, mas para a mulher.

— Sempre dá, Dona. Só precisa ver se a senhora ainda quer caminhar com eles.

Ela quase sorriu.

— Já não caminho muito..., mas ainda ando.

E foi assim que começou.

Dona Lídia passou a voltar. No começo, com desculpas: um chinelo com a tira frouxa, uma bota esquecida no armário, um sapato do falecido que ela nem sabia por que guardava. Depois, voltava só para sentar-se na cadeira de palha, perto do balcão.

Falavam pouco. Raul não era homem de conversa fiada. Mas escutava bem, e Dona Lídia logo percebeu que falar com ele era como abrir uma caixa velha sem medo do que havia dentro.

Contava-lhe da juventude em Santa Esmeraldina, dos filhos que foram embora e quase nunca ligavam, do marido que morrera num Natal sem aviso, como se desliga a luz. Contava sem drama, com aquela secura dos que aprenderam a sofrer calados.

— Tem dor que só cura quando a gente cansa dela.

Ou então:

— A senhora fala dos outros, mas parece que esqueceu de si. Quem era a Dona Lídia antes de virar “a viúva do Seu Orlando”?

Essas frases grudavam nela. Voltava para casa e as deixava ecoar pelos cantos da sala, misturadas ao tic-tac do relógio e às lembranças empoeiradas.

Com o tempo, passou a levar comida: um pedaço de torta, um pão de queijo, café forte em garrafinha térmica. Raul aceitava tudo com um aceno leve e um “obrigado” que valia mais que muitos abraços.

Num fim de tarde, enquanto a chuva tamborilava no telhado da sapataria, Lídia perguntou:

— Por que você está aqui, Raul? Um homem como você podia estar em outro lugar.

Ele limpou as mãos num pano, olhou pela janela.

— Já estive em muitos lugares. Já perdi gente, já errei demais, já fugi do que doía. Aqui é o único canto onde ainda escuto a mim mesmo. E a senhora.

Ela baixou os olhos, tocada. Ninguém a escutava há tempos.

O tempo passou como passa para os que sobrevivem. Lento e veloz.

A sapataria continuava sendo um refúgio. Lídia, antes uma mulher curvada pela tristeza, começava a se erguer. Voltou a pintar os cabelos. Um dia apareceu com um lenço vermelho. Noutro, contou que escrevera uma carta para o neto.

— Ele respondeu? — Raul quis saber.

— Ainda não. Mas eu não escrevi para ter resposta. Escrevi para lembrar que ainda sei amar.

Numa manhã de inverno, a sapataria abriu tarde. Lídia estranhou. Raul estava lá dentro, mas sentado, com o rosto pálido.

— Está doente?

Ele sorriu fraco.

— Só cansado. Coisa que passa.

Na semana seguinte, ela levou sopa. E depois um cachecol tricotado por suas mãos — mãos que agora voltavam a servir para algo mais que lembrar.

O tempo, porém, tem seus caprichos. Um dia, Raul não abriu a sapataria. Depois, dois, três. No quarto dia, Lídia foi até o hospital. Soube por um vizinho que ele estava internado, algo no coração.

Foi visitá-lo com passos firmes. Levou flores e um dos sapatos antigos, restaurado por ele.

— Vim te devolver o que você me deu, Raul. Caminho.

Ele riu, mesmo fraco.

— Caminho é bom. Mas só vale se for com alguém por perto.

Raul voltou. Aos poucos, retomou a sapataria. E agora havia duas cadeiras de palha junto ao balcão.

Dona Lídia passou a ser presença certa, parte do lugar. Ganhou um avental, aprendeu a colar solas, a lustrar couro. Mas, mais que isso, aprendeu a ouvir também. Às vezes, quem entrava era ela — com sua história, sua ternura e sua força discreta — quem escutava o outro.

A sapataria virou ponto de encontro. De conserto de sapatos, sim. Mas de afetos também.

E quem passava por ali, talvez não visse mais do que uma velha senhora e um sapateiro jovem, em silêncio, trabalhando. Mas os que viam com o coração sabiam: eram dois sobreviventes amparando-se mutuamente, costurando com amizade o que a vida tentou romper.



Silvia Marchiori Buss

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