A Mulher de Olhos de Cristal

Naquela casa de paredes gastas e janelas sempre abertas, tudo tinha cor. A luz entrava mansa pela manhã, como se pedisse permissão para tocar os retratos, as cortinas costuradas à mão, os livros empilhados em cantos improváveis. E havia ela — a mulher que transformava a poeira em brilho e os dias comuns em pequenos milagres.

Chamavam-na de mãe, mas ela era mais. Era o laço e a lâmina, a voz e o silêncio, o porto e o vento.

Tinha olhos de cristal, diziam. Porque enxergava o que ninguém mais via. Achava graça no que para os outros era só rotina. A dor, ela não negava, mas colocava sobre a dor um cobertor de palavras simples, como quem diz: "Vai passar, como passa a chuva."

Foi justamente a chuva que não passou.

Naquela noite, o temporal chegou sem avisar. Veio rasgando o céu, levando a luz, os fios, os muros baixos da vizinhança. O rio, que antes murmurava preguiçoso nos fundos da cidade, ergueu-se como fera despertada. E no meio da correnteza, sem testemunhas além da própria noite, ela se foi.

“Foi o rio”, disseram depois. “Levou como leva folha seca.” Mas quem a conhecia sabia: ela não era folha. Era raiz.

Na casa, restaram três filhos e um homem emudecido. O mundo, sem os olhos de cristal da mãe, ficou opaco. As coisas perderam o jeito. A comida não tinha gosto. Os risos não tinham hora. As palavras, que antes se deitavam suaves sobre os ombros, agora eram pedras dentro da boca.

Ninguém sabia o que fazer com o vazio. Tentaram preencher com lembranças, mas lembranças pesam. Tentaram seguir em frente, mas tudo lembrava os passos dela. Tentaram se calar, mas o silêncio também era dela.

O tempo passou — ou fingiu que passava. As roupas dela continuavam dobradas. A caneca com florzinha permanecia no mesmo lugar, como se fosse voltar a qualquer momento para aquecer o chá. O pai aprendeu a cozinhar, mas nunca soube acertar o ponto do arroz. A filha mais velha assumiu a casa, mas não conseguia dobrar os lençóis como a mãe fazia. O do meio escrevia cartas que nunca enviava. E o menor… o menor esperava. Achava que, um dia, o rio devolveria sua mãe, com a roupa molhada e o cabelo grudado no rosto, rindo da travessura da vida.

A dor não virou poema. Não virou lição. Nem redenção.

Virou apenas um modo novo de estar no mundo. Um modo mais silencioso, mais atento, talvez mais frágil. A casa não voltou a brilhar como antes, mas vez ou outra, quando a luz da manhã atravessava certo ponto da janela, uma cintilância se espalhava nos móveis — e todos se olhavam em silêncio.

Talvez, pensavam, fosse ela. Talvez não.

Não importa.

Algumas presenças seguem conosco mesmo quando os pés já não tocam o chão. E há vidas que não terminam — apenas mudam de forma, esperando a próxima vez em que possam, outra vez, iluminar.

O pai foi o primeiro a se desmanchar. Mas não diante dos filhos. Diante deles, endureceu. Fez da ausência dela uma tarefa, um relógio, um manual que ele tentava seguir com precisão cirúrgica. Acordava sempre no mesmo horário, passava café mesmo sem tomar, abria as janelas e regava as plantas que ela amava — mesmo que algumas já estivessem mortas.

À noite, sentava-se na poltrona dela, como se o corpo dela ainda aquecesse o tecido. Lia o jornal como ela fazia, mas seus olhos não percorriam as linhas. Apenas fingiam. Uma forma de estar com ela sem a encontrar. Às vezes, cochilava ali, com o jornal caído no colo e a boca entreaberta, como se esperasse que o sono o levasse ao mesmo lugar para onde ela tinha ido.

A filha mais velha, Clara, assumiu o bastidor da casa. Não por querer, mas porque alguém precisava. Aos 17 anos, a adolescência foi engavetada junto com os vestidos de festa. Cuidava dos irmãos, da comida, da roupa, das contas. Mas dentro dela havia uma revolta muda — contra o céu, contra o rio, contra tudo que não avisou que a vida podia virar o avesso num piscar de olhos.

Nas madrugadas, quando todos dormiam, Clara chorava no chão da cozinha, sentindo o cheiro do sabão que a mãe usava para limpar a pia. Sentia que nunca conseguiria ser como ela. E isso doía mais do que a falta. Era como se o mundo pedisse para que ela virasse mulher, mas mulher como aquela? Impossível. Clara era só uma menina tentando imitar a força.

O filho do meio, Lucas, refugiou-se no silêncio. Aos 13 anos, começou a colecionar folhas do quintal, como se procurasse uma que fosse igual à que levou a mãe. Escrevia em cadernos escondidos. Não contava a ninguém. Seus textos falavam de rios, de correntezas, de mães que viravam vento, de casas que falavam. Tentava explicar a morte com metáforas, mas nenhuma fazia sentido por completo.

No fundo, Lucas achava que se conseguisse escrever a dor certa, ela voltaria. Ou pelo menos ele conseguiria ver o mundo como ela via: com olhos de cristal. Mas os dele estavam sempre embaçados.

E havia o caçula, Benjamim. Tinha oito anos e acreditava em mágica. Dizia que a mãe agora morava numa bolha invisível que flutuava sobre o telhado. Subia ao sótão com uma luneta quebrada, ficava horas olhando para o céu. Às vezes falava com ela. Perguntava se estava bem, se precisava de agasalho, se ainda fazia café lá onde estava.

Não entendia por que todos pareciam tristes o tempo todo. Para ele, a mãe estava apenas... em pausa. Como quando dormia profundamente e eles tinham que esperar ela acordar.

Assim, cada um deles seguia à sua maneira. O tempo não curava. Não corrigia. Apenas passava, como passa o vento numa casa vazia — movendo cortinas, empurrando memórias, levantando a poeira das coisas que ainda resistem.

E resistiam. Não por força, mas por amor. Amor que permanecia, mesmo quando tudo parecia desabar. Resistiam porque algumas presenças seguem conosco mesmo quando os pés já não tocam o chão. E há vidas que não terminam — apenas mudam de forma, esperando a próxima vez em que possam, outra vez, iluminar.

 


Silvia Marchiori Buss

 

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