Um Único Beijo

A cidade pulsava em cores e música. O Carnaval arrastava foliões pelas ruas como uma maré indomável de brilho e fantasia. Entre confetes e serpentinas, corpos dançavam em êxtase, sorrisos se misturavam à melodia e os pés pareciam flutuar sobre o asfalto quente.

Ela caminhava devagar entre a multidão, seu corpo envolto em uma fantasia etérea, um vestido leve que se movia com a brisa salgada. No rosto, uma máscara dourada ocultava mais que sua identidade; escondia a melancolia que seus olhos não conseguiam disfarçar. Não estava ali para festejar, mas para se perder, para se dissolver entre os desconhecidos e a alegria alheia. A máscara era sua proteção, um escudo contra perguntas, contra olhares curiosos.

Ele vinha na direção oposta, disperso, alheio ao frenesi ao redor. Sua alma carregava um peso invisível, mas que tornava seus passos lentos. Nada ali o tocava, nem a música, nem os risos, nem os corpos brilhantes de suor e purpurina. Seu destino era incerto, sua vontade era seguir sem rumo, apenas se movendo para longe de si mesmo.

Foi então que seus olhos se encontraram.

No instante em que se viram, o Carnaval ao redor se dissolveu. O tempo, que até então parecia correr como uma onda irrefreável, parou. Não precisavam de palavras para se reconhecerem na tristeza que carregavam. Ali, diante um do outro, o disfarce se tornava inútil. A máscara dourada já não fazia sentido.

Ela ergueu as mãos devagar e a retirou, deixando-a cair suavemente no chão. Sua pele nua se revelou, e seu olhar, sem mais barreiras, se abriu como um livro que só ele poderia ler.

Ele abaixou-se, pegou a máscara caída, observou-a por um instante e, sem dizer nada, colocou-a sobre o próprio rosto. Naquele gesto, selaram um pacto silencioso, um compartilhamento breve, mas eterno.

E então aconteceu.

Um único beijo. Sem promessas, sem amanhã, sem passado. Um instante de entrega, um encontro fugaz entre dois viajantes perdidos na correnteza da vida. Um beijo que não pedia mais do que o que já era: um respiro no meio da festa, um momento de verdade onde tudo era ilusão.

Sem trocar uma palavra, sem olhar para trás, continuaram suas trajetórias opostas. Ele seguiu em direção à Banda de Ipanema. Ela, para Copacabana.

A cidade seguiu vibrando, indiferente ao encontro efêmero. Mas ali, no meio da avenida, entre confetes e pisadas apressadas, uma máscara dourada repousava no asfalto, brilhando sob a luz do Carnaval.



Silvia Marchiori Buss

 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Energia na Parede

Navegando na Ausência

O Silêncio da Professora