Somos Oceano
Há uma imagem bela plena e serena que li de um mestre budista, e que tem me acompanhado desde então.
Ele dizia que, ao nascermos, somos como gotas que borbulham
do oceano.
Essa imagem me tocou fundo. Pensei em como, ao surgir à
vida, parecemos algo novo, separado, com forma própria. Uma pequena gota de existência,
distinta do imenso mar. Recebemos um nome, um corpo, um caminho. E a partir daí,
passamos a acreditar que somos apenas isso: uma individualidade, um contorno,
uma história isolada.
Vivemos assim.
Tentando provar que existimos. Tentando durar. Tentando
resistir ao vento, à evaporação, a dor de ser tão pouco diante de tanto.
Tentando controlar o mar que nos habita.
E então chega o tempo da partida. O corpo cansa, a forma
começa a se desfazer, e a gota retorna. Mas não como fuga – como reencontro.
Quando morremos, diz o mestre budista, não desaparecemos.
Voltamos ao oceano.
E nesse retorno, percebemos algo essencial: nunca estivemos
realmente fora dele. A ideia de separação era apenas uma ilusão da forma.
Sempre fomos água. Sempre fomos mar. Mesmo quando nos sentimos
solitários, frágeis ou esquecidos.
A morte, nessa visão, não é perda. É diluição. É o momento
em que deixamos de resistir e voltamos a pertencer. É deixar de ser gota para
ser oceano.
Essa reflexão nos convida a algo muito simples e muito
difícil: Viver com consciência de que somos parte.
Parte do todo.
Parte do outro.
Parte de algo maior que nos acontece e nos acolhe.
E talvez, se soubermos reconhecer esse pertencimento ainda
em vida, possamos viver com mais leveza.
Menos medo.
Mais compaixão.
Mais gratidão.
Afinal, a gota que somos hoje já contém o oceano inteiro.
Silvia Marchiori Buss

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