Somos Células Fundidas

Toda existência humana começa com um ato de fusão. Duas células, vinda de corpos distintos, se encontram e se tornam uma. Dessa unidade primordial, multiplica-se uma sinfonia de divisões e especializações, um organismo se constrói em silêncio, obedecendo a um roteiro invisível e inexorável. Do um ao muitos, do indivisível ao diverso, nos tornamos o que somos: um sistema coordenado de células que coexistem, trabalha e se renova, um equilíbrio dinâmico que nos mantém em movimento.

A complexidade que nos habita é um paradoxo. O ser humano, sem retirar o mérito de qualquer outra forma de vida, é uma máquina de precisão incomparável. Cada célula cumpre sua função com disciplina absoluta, sem saber que faz parte de algo maior. Os neurônios, que transportam nossos pensamentos, sentimentos e memórias, também estão sujeitos ao colapso. Ironia da existência: quanto mais complexo é um sistema, mais vulnerável ele se torna. A estrutura que nos faz pensar, criar e imaginar também nos faz suscetíveis ao desequilíbrio.

Há uma ideia amplamente difundida de que aqueles que crescem em meio ao cuidado e ao conforto são, paradoxalmente, mais frágeis do que aqueles que enfrentam adversidades desde o berço. Se a carência ensina resiliência, a abundância pode criar uma certa intolerância ao sofrimento. Será que, ao sermos protegidos da dor, nos tornamos menos preparados para enfrentá-la? Enquanto isso, do outro lado do mundo, ou talvez na porta ao lado, há aqueles que sobrevivem apesar de tudo, fortalecidos pelo que deveriam temer.

Tudo, no fim, é sobre a sobrevivência da espécie. Mas vale perguntar: merecemos sobreviver? Acreditamos ser os seres mais importantes do planeta, os guardiões do pensamento e da consciência. Mas, diante da vastidão do universo, o que realmente somos? O planeta, sem nós, continuaria a girar, suas montanhas se ergueriam e desmoronariam, os rios esculpiriam os vales, os desertos se expandiriam e recuariam sem que ninguém estivesse lá para observar. O que nos faz pensar que somos necessários?

Apesar dessas questões, há um dado inegável: vencemos. Sobrevivemos ao improvável. Resistimos à dor, às tragédias, aos desencontros, aos acidentes e às perdas. Seguimos. Por mais que o peso da existência ameace nos esmagar, por mais que nossas próprias estruturas nos traiam, seguimos. E seguimos porque, de alguma forma, existe uma força dentro de nós que sequer sabemos nomear.

Talvez, no fim, seja essa mesma força que nos define. O desejo incontrolável de seguir adiante, de buscar respostas, de questionar nossa própria relevância. Somos células fundidas que se multiplicaram, especializaram-se e, um dia, deixarão de existir. Mas até lá, persistimos. E isso, por si só, é extraordinário.

 

Silvia Marchiori Buss

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