Preguiça de Mim
Tem dias que eu canso de mim. Mas não é um cansaço profundo, desses que pedem um repouso, uma pausa restauradora. É um cansaço diferente, uma fadiga da própria existência cheia de exigências absurdas. Uma preguiça da minha própria voz interna que cobra demais, que nunca está satisfeita, que insiste em um ideal que não é meu, mas que, de tanto me sussurrar, acabei acreditando.
A gente se acostuma a se olhar como um projeto inacabado. Como se houvesse sempre um conserto a fazer, uma melhora urgente, uma versão mais polida e apresentável de nós mesmos. "Esse cabelo precisa de um corte." "Essa pele precisa de um creme." "Esse corpo precisa de uma dieta." E assim a vida vai se tornando uma longa lista de reparos, como se fôssemos uma casa antiga que nunca está boa o suficiente para receber visitas.
E a idade? Ah, a idade é um capítulo à parte. É um teatro de expectativas que nunca se alinham ao que a gente realmente sente. Se somos jovens, precisamos parecer maduros. Se amadurecemos, precisamos parecer jovens. O tempo é um jogo de disfarces que a sociedade nos obriga a brincar, como se houvesse algo de errado em simplesmente existirmos dentro da própria idade, com suas marcas, suas belezas, suas dores e suas conquistas.
E pra quê? Pra quem? Pra impressionar o outro. Esse "outro" que nem sempre sabemos quem é, mas que guia nossos gestos, nossos filtros de Instagram, nossas escolhas de roupa, nossos sorrisos ensaiados. Esse "outro" que mora no imaginário coletivo e que nos obriga a caber em moldes estreitos demais para a vastidão do que somos. Esse "outro" que nem se importa tanto assim, porque está ocupado demais tentando se encaixar em seus próprios moldes.
Dá uma canseira viver assim. Uma preguiça de mim, de me espremer dentro de uma forma que não é minha, de buscar aprovação de quem nem está prestando tanta atenção assim. De fingir que não vejo as rugas, que não me importo com a celulite, que não ligo pro cabelo branco. De tentar parecer relaxada enquanto me cobro o tempo todo.
Talvez seja hora de parar. De aceitar o que sou, sem tanto drama, sem tantos ajustes. De deixar o cabelo crescer como quiser, a pele envelhecer como precisa, o corpo ocupar o espaço que tem. De olhar para a própria imagem e não sentir a necessidade de editar nada. De respirar aliviada, sem precisar provar nada a ninguém, nem a mim mesma.
Quem sabe assim, um dia, eu canse menos de mim.
Silvia Marchiori Buss
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