O Que Nos Resta Diante da Ausência
Diante da falta, nos resta a memória. Mas a memória pode ser traiçoeira. Às vezes, ela nos puxa para os últimos momentos de alguém, para a dor da despedida, para o vazio que se instalou quando percebemos que não haveria mais um reencontro. Mas também há outra forma de lembrar: podemos escolher focar no que foi bonito, no que foi intenso, no que fez valer a pena ter compartilhado a vida com aquela pessoa.
É um processo, e nem sempre é fácil. No começo, a saudade
dói como uma ferida aberta, cada lembrança é um corte, um sopro gelado na alma.
Com o tempo – e é preciso tempo – aprendemos a transformar essa dor em algo
mais brando, mais doce, mais sereno. Deixamos de querer voltar desesperadamente
ao passado para entender que levamos esse passado dentro de nós, na forma de
histórias, de gestos, de ensinamentos.
Quem amamos nunca vai embora completamente. Ficamos com os
cheiros, com as expressões, com os detalhes miúdos do cotidiano que, de
repente, se tornam sagrados. Um café na xícara preferida, um livro esquecido na
prateleira, uma música que toca no rádio e nos transporta para um instante
perdido no tempo.
A dor do luto é, muitas vezes, a dor do descontrole.
Perdemos alguém e, com isso, perdemos também a estrutura que aquela pessoa
representava em nossas vidas. O que antes era certo, agora é um grande vazio
sem contorno. A mente se enche de lembranças desordenadas, como gavetas
reviradas. Precisamos, então, criar ordem no caos, decidir quais memórias
queremos revisitar com frequência e quais precisam ser guardadas para momentos
mais silenciosos.
Talvez seja lembrar do sorriso ao invés da despedida. Do
toque carinhoso ao invés do adeus. Do som da risada ao invés do choro. Podemos
construir pequenas homenagens dentro de nós. Um ritual de lembrança.
Acender uma vela no aniversário, preparar uma receita que aquela pessoa
gostava, escrever uma carta para dizer o que ficou sem ser dito. Criar formas
de manter viva a essência, sem que isso nos prenda ao sofrimento.
Porque, no final, não importa o que aconteceu no instante da
morte. O que importa é tudo o que veio antes: os momentos de alegria, de amor,
de cumplicidade. São esses que devemos guardar com mais carinho.
Aceitar a morte não é esquecer quem partiu. É entender que o
amor continua, mas se transforma. Não há tempo certo para isso, nem regras.
Cada um encontra o seu próprio jeito de seguir adiante sem deixar de carregar
consigo aqueles que se foram.
A verdade é que, um dia, todos nos tornaremos lembrança para
alguém. E talvez a maior homenagem que possamos prestar a quem já não está aqui
seja viver de maneira plena, honrando o que eles nos ensinaram, levando adiante
o que de melhor eles deixaram.
Afinal, no final das contas, somos todos feitos de
histórias. E, enquanto formos lembrados, de alguma forma, seguimos vivos.
Silvia Marchiori Buss
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