O Que Fazer Com Essa Saudade?

Dizem por aí que a saudade passa. Que, com o tempo, ela se transforma — em lembrança, em memória serena, em aceitação. Dizem que ela suaviza as bordas, que deixa de ser grito e vira sussurro. Que se acomoda num canto do peito como um visitante que não incomoda mais.

Mas… e quando isso não acontece?

E quando a saudade ainda arromba a porta do coração e se instala no centro do peito, exigente, feroz, doída? Quando ela pulsa com tanta força que parece ter vontade própria — como se quisesse gritar o nome de quem partiu para dentro do mundo?

Escrevo. Pinto. Caminho, Converso. Tento distrair a mente, fazer o corpo cansar antes da alma. Mas ela, a saudade, não se cansa. Permanece. Vigia cada instante de silêncio, se esconde por trás de cada música, de cada cheiro, de cada frase que me escapa: “quando eu contar pra ele...”, “quando a gente se encontrar...”, “ele vai adorar isso…”

Mas não vai. E não vamos. E é aí que a saudade crava seus dentes mais afiados.

O que fazer com essa saudade que não some? Que não se transforma? Que insiste em existir como se ainda houvesse tempo, como se ainda fosse possível voltar?

Talvez o que nos reste seja apenas isso: acolhê-la. Sentá-la à mesa. Deixar que chore junto conosco, que nos lembre o quanto amamos, o quanto fomos amados. Talvez a saudade não seja o fim — talvez seja só mais uma forma de continuar.

Porque, no fundo, a saudade é o eco do amor que não tem mais onde morar, mas que insiste em ficar.

 



Silvia Marchiori Buss

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