O Presente
Ninguém sabia, mas havia um lugar na casa onde a dor se vestia de silêncio e a saudade parecia adormecer. Era o quarto que ele lhe deixou — não apenas com as paredes recém-pintadas, os móveis escolhidos com cuidado ou os detalhes que carregavam a memória de suas mãos — mas com o amor que resistia ao tempo e à ausência.
Foi o último presente que recebeu
dele. Um gesto que parecia simples aos olhos do mundo, mas que continha tudo o
que importava: cuidado, ternura, presença. Ele pensou em cada canto, em cada
cor, como se dissesse, sem palavras, “aqui você vai se sentir protegida”. E, de
alguma forma misteriosa, é ali que ela sente proteção.
É naquele espaço que a ausência
se torna presença sutil, como um perfume antigo que ainda paira no ar. O lugar
em que o peito se alivia, onde as lembranças não machucam tanto. Ali, as
lágrimas vêm mais brandas, e a saudade dói menos. Não porque ela tenha partido
— a saudade permanece — mas porque, naquele quarto, ela é acolhida.
Ali, ela repousa. Ali, ela
conversa com o silêncio e sente que ele escuta. Ali, o amor não terminou:
transformou-se em espaço, em abrigo, em memória viva. E mesmo na falta, ela
sabe — ele ainda cuida dela.
Silvia Marchiori Buss
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