O Amor Trabalha ao Lado

Marietinha era da pá virada. Gostava de samba, cerveja, noitadas e, principalmente, de namorar muito. Com cinquenta anos bem vividos, como dizia, só se arrependia de uma coisa: não ter namorado uma mulher. Ultimamente, havia encasquetado com essa ideia… queria saber qual era a sensação.

Marietinha era evoluída, achava a vida bela e nunca se fixava em um amor. Dizia que o melhor amor era sempre aquele que estava por vir.

— O tempo é curto, não se pode desperdiçá-lo... blá, blá, blá! Então, tá!

Essa era Marietinha… que, por sinal, nunca entendeu o "inha", já que era um mulherão.

Jussara era a esquisita do trabalho, "vizinha" de mesa de Marietinha. Consideravam-na a chatinha do escritório, e dela nada se sabia. Podia-se dizer que Jussara era moça fina" e fria.

Vestia-se diferente de todas as outras, sempre com terninho escuro de saia justa, meia preta, salto alto e cabelo preso em coque, o que lhe conferia um ar sisudo e de pouca conversa.

Desde que Marietinha encasquetou com a ideia de ficar com outra mulher, todas lhe chamavam a atenção.

— Não! Jussara não. Imagina... Eu, hein!

Era uma tarde quente de sábado, início de verão, quando Marietinha saiu com seus "filhotes" — dois poodles — até a praça. Já na primeira volta, deu de cara com Jussara.

Mas aquela não era a Jussara do escritório.

Cabelos soltos, roupa justa ao corpo, tênis de corrida, pele suada e corada pelo sol. Corria leve, solta, sem a rigidez da executiva que Marietinha conhecia.

— Marietinha... — chamou Jussara, parando ao seu lado, respirando fundo. A voz vinha macia, quase melosa.

Marietinha piscou, sem resposta. O coque severo havia dado lugar a ondas soltas que brilhavam sob o sol. A maquiagem carregada havia sumido, revelando um rosto jovem, bonito.

— Jussara? — repetiu, ainda meio sem acreditar.

— Em carne e osso. — Jussara sorriu, e pela primeira vez, não havia nada de frio nela.

O constrangimento durou apenas um instante. Marietinha era esperta, e Jussara... bom, Jussara estava surpresa por se sentir confortável ao lado dela.

— Não sabia que você corria. — Marietinha puxou conversa, segurando os poodles no colo.

— Eu sei que você não sabia. Você nunca me olhou direito.

Marietinha arregalou os olhos. Ousada.

— Ora, veja só... E você? Me olhava?

Jussara sorriu de canto.

— Talvez...

A resposta ficou no ar, carregada de possibilidades.

— Tá me estranhando, Jussara?

— Não... — Jussara olhou-a de cima a baixo e completou: — Estou te conhecendo.

Foi quando Marietinha soube.

A conexão foi imediata. Marcaram um almoço para o dia seguinte... sem hora para acabar.

Marietinha chegou primeiro. Escolheu um restaurante discreto, mas acolhedor, e pediu um chope para passar o tempo. Mexia no celular quando sentiu um perfume diferente no ar.

Olhou para cima e lá estava Jussara, de vestido claro, sem meia preta, sem coque, sem muralhas.

— Cheguei cedo demais? — perguntou Jussara, sentando-se.

— Chegou na hora certa — respondeu Marietinha, sorrindo.

O garçom veio e fizeram o pedido. Entre goles de chope e pratos compartilhados, a conversa fluiu com facilidade. Falaram sobre a vida, sobre trabalho, sobre o tempo, sobre tudo... e nada. A tensão inicial logo se dissipou, dando lugar a algo novo.

Quando a sobremesa chegou, Marietinha sorriu e inclinou-se sobre a mesa.

— Então... sempre me olhou, é?

Jussara sustentou o olhar por um segundo antes de responder.

— Sempre. Mas você só resolveu enxergar agora.

O silêncio que veio depois foi um convite. E Marietinha aceitou.




Silvia Marchiori Buss

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