Nós!
Nós. Uma palavra tão pequena e, ao mesmo tempo, tão vasta. Enlace, embaraço, vínculo. Representação da soma de dois que se arriscam na travessia um do outro.
No começo, tudo era descoberta. O fascínio pelo
desconhecido, a surpresa nas pequenas revelações, a pele que arrepiava ao menor
contato. Os olhos buscavam nos gestos sinais de encanto, os corpos se
encontravam na ânsia de se reconhecerem. O tempo corria feito criança solta no
campo, sem freios, sem pressa de chegar a lugar nenhum.
Mas o encanto, como se sabe, tem seu próprio ritmo. E então
veio o tempo de enxergar o outro não como projeção, mas como ser. As
diferenças, antes traços exóticos de um mapa novo, tornaram-se pequenos abismos
a serem cruzados. A maneira como um falava, como o outro calava. O silêncio que
dizia muito, o excesso de palavras que abafava o essencial.
Houve dias de tempestade, palavras afiadas que cortavam o
ar, ausências que gritavam mais do que presenças. Houve também a calmaria, o
perdão sem alarde, a aceitação sem exigência. O aprendizado de que nem sempre
se concorda, e tudo bem. Que respeitar não significa moldar, mas acolher. Que
admirar não exige a necessidade de um reflexo, mas a capacidade de reconhecer a
beleza no que não se é.
Outros laços ao redor desmancharam-se rápido.
Relacionamentos de superfície, frágeis como vidro fino, que se partiam ao menor
impacto. Havia, por aí, quem buscasse apenas o reflexo de si mesmo no outro,
sem compreender que amar é muito mais do que encontrar um espelho. Amar é estar
disposto a ver além do que se deseja ver.
O que manteve o “nós” de pé não foi um ideal romântico ou um
roteiro impecável. Foi a escolha cotidiana de permanecer, mesmo quando a
estrada se tornava sinuosa. Foi o entendimento de que um laço forte não se faz
de correntes, mas de respeito. Não se constrói na tentativa de preencher o
outro, mas na capacidade de se maravilhar com o que ele já é.
E assim, entre altos e baixos, entre diferenças e encontros,
eles seguiram. Um dia após o outro. Um nó que não sufoca, mas também não se
desfaz com o primeiro vento. Um nós que sobrevive não por falta de opção, mas
por reconhecimento de valor.
Porque, no fim das contas, amar é mais do que querer ficar.
É aprender a ficar.
Silvia Marchiori Buss
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