Na Escuridão da Minha Noite e Na Claridade do Meu Dia

 Na claridade do dia, ela veste sua armadura. Caminha ereta, fala firme, responde às perguntas com um sorriso breve. Aos olhos do mundo, continua em pé, resistente. A vida segue, dizem. E ela segue junto, passo a passo, sem que percebam o peso invisível que carrega. A força não é escolha, é necessidade.

O sol ilumina seu rosto, mas não alcança as sombras que traz no peito. Durante o dia, cumpre suas obrigações, ergue a cabeça, encontra coragem onde antes havia medo. Mas a noite... ah, a noite é um território sem defesa.

Quando o silêncio invade a casa, a ausência grita. É na escuridão que a dor se desenlaça do peito, escorre pelos olhos, treme nas mãos vazias. Ela se entrega, sem resistência. Não há força que sustente o que precisa desabar.

Na noite, ela é a mulher que chora, que sente, que revive cada riso, cada toque, cada despedida. Mas ao amanhecer, recolhe os cacos e os guarda no fundo da alma, onde ninguém pode ver. Porque amanhã haverá sol outra vez, e ela precisará caminhar.

Assim ela vive: entre a coragem do dia e a vulnerabilidade da noite. Entre a claridade que a empurra para frente e a escuridão que a puxa para trás. Dois mundos paralelos, entrelaçados pela saudade.

Mas talvez seja assim que a vida ensina: permitindo que se perca para um dia, se reencontrar.

 

Silvia Marchiori Buss

 

 

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