Na Chuva

A chuva caía densa sobre a Avenida Paulista, transformando as luzes da cidade em reflexos borrados e multicoloridos. Em meio ao movimento frenético das pessoas, uma mulher andava devagar, os olhos sem direção, como se o mundo ao redor não passasse de um cenário embaçado. Era sempre na chuva que ela encontrava o lugar para seu lamento. Ali, ninguém podia distinguir as lágrimas da água que escorria pelo seu rosto.

Júlia havia dedicado anos de sua vida a um homem que, pensava ela, lhe seria grato, fiel e verdadeiro. Vinha de uma família próspera, e, movida pelo amor, quis compartilhar o que tinha com ele. Para Pedro, proporcionou uma vida confortável, viagens, a casa aconchegante e tranquila que ele sempre desejou – ou assim dizia. Porém, em uma manhã fria e seca, ele foi embora sem aviso, sem uma explicação razoável, deixando Júlia perdida, com o coração estilhaçado e a sensação de que havia sido apenas uma peça num jogo cruel.

Aquele homem que ela amava se tornara uma sombra de ingratidão, levando consigo não apenas a felicidade dela, mas também sua confiança e segurança. Naquela tarde chuvosa, cada passo que dava parecia um esforço desesperado para se afastar da dor que trazia no peito, mas a dor era teimosa e caminhava ao lado, persistente. Sentia-se enganada, traída, sem entender como ele pôde ir embora, depois de tudo.

Seu pranto se confundia com a chuva, e Júlia desviava das pessoas sem rumo certo, com a mente mergulhada em lembranças que a faziam apertar o passo, como se fugir das memórias fosse possível. A raiva pulsava em seu peito, uma raiva que, de tão intensa, chegava a assustá-la. Como ele pôde ser tão frio, tão desumano, após tudo que viveram juntos?

— E eu, o que faço agora? – sussurrava, enquanto se apertava no próprio casaco encharcado. Não havia respostas.

De repente, ao cruzar uma esquina, ela parou. Estava diante de uma pequena banca de flores. Um vendedor ajeitava buquês sob um toldo que mal protegia da chuva. Os olhos de Júlia foram atraídos por uma flor solitária, uma margarida branca, que parecia resistir ao peso das gotas. De algum modo, a imagem daquela flor solitária, tão simples e firme na tempestade, tocou algo dentro dela. Era como se dissesse: “Mesmo sob a chuva, ainda estou aqui.”

Júlia respirou fundo, segurou o soluço que quase a dominava. Pegou a flor em suas mãos e, em um gesto de renovação silenciosa, ergueu o rosto ao céu. As gotas de chuva lavavam sua pele, misturando-se às lágrimas que, de alguma forma, pareciam menos amargas.

Naquele instante, Júlia soube que a tempestade passaria. Ainda doía, iria doer por muito tempo, dor e amor, na mesma proporção. O amor que tinha por ele, que fora parte dela, não era o fim. Olhou ao redor e enxergou a cidade, as pessoas, os edifícios, e finalmente, seu caminho. Ainda estava ali, e a chuva era, afinal, apenas um momento. Com a margarida na mão, Júlia seguiu pela avenida Paulista, de cabeça erguida, permitindo-se sentir, passo a passo, um pouco mais forte, um pouco mais viva, um pouco mais confiante.




Silvia Marchiori Buss

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