Debaixo do Mesmo Teto
A casa ficava na Rua das Laranjeiras 112. Uma casa simples, térrea, com varanda de cimento e um portão que rangia cada vez que alguém entrava ou saía. Era fácil saber quando alguém chegava. Mas, verdade seja dita, ninguém chegava ali com frequência. A vida naquela rua era mansa demais para surpresas.
Pedro acordava todos os dias às 6h15, sem alarme. O corpo já sabia a hora. Caminhava até a cozinha, coava o café no pano, pegava o pão amanhecido da véspera e o cortava com pressa, quase sempre fazendo farelos no chão. Lúcia já estaria levantando os meninos, Henrique e Davi, de sete e dez anos, respectivamente. O mais novo protestava, o mais velho só resmungava. Era sempre assim.
- Eles precisavam dormir mais cedo – dizia Pedro, toda manhã, sem convicção.
- E você precisa ajudar mais à noite- respondia Lúcia, sem levantar os olhos do pão que agora torrava na frigideira.
Eles se cruzavam pela cozinha como se fossem trilhos de trem: paralelos, eficientes, previsíveis. Dividiam tarefas, preocupações, boletos e silêncios. Havia amor ali, talvez. Ou pelo menos algo que o lembrava de longe – cuidado, rotina, lembranças em comum. Mas a paixão, aquela que os fizera correr pela praça aos beijos escondidos na adolescência, evaporava como o café esquecido no fogão.
Pedro trabalhava na oficina do pai, agora já sua. Não reclamava. era o que sabia fazer. Lúcia dava aulas na escola da cidade, primeiro ano. Cuidava das crianças dos outros durante o dia, dos seus à noite. Havia cansaço que nenhuma noite de sono resolvia.
As conversas entre eles iam se resumindo. “Pegou o leite.”. “A reunião do Henrique é amanhã”. “O cano da pia tá vazando”. Nada que doesse, mas também nada que aquecesse. O toque, antes instintivo, tornara-se acidental. Os corpos ainda dormiam na mesma cama, mas como ilhas vizinhas que esqueceram a ponte.
Às quartas, Lúcia fazia bolo. Era uma tradição que criara com os filhos – o dia do “bolo de meio de semana”. Chocolate, cenoura, fubá, alternava os sabores, mas não o gesto. Os meninos vibravam. Pedro comia em silêncio. Às vezes elogiava, outras vezes esquecia. Lúcia notava, mas não cobrava. O bolo era mais para os meninos do que para ele. Talvez fosse uma forma de lembrar que ainda havia doçura possível, mesmo que pouca.
À noite, quando os filhos dormiam, Lúcia olhava para Pedro na poltrona, com o controle remoto na mão, e sentia uma pontada estranha, que não era exatamente tristeza. Era algo mais morno, como uma saudade de um tempo que já não sabia nomear. Em outros dias, ele olhava para ela dobrando roupas, com os cabelos presos de qualquer jeito, e sentia alguma coisa. Não era desejo, não era mágoa. Era o reconhecimento de quem vive com alguém há tempo demais para se surpreender.
A paixão, aquela que os fizera correr pela praça aos beijos escondidos na adolescência, evaporava como o café esquecido no fogão.
Nos domingos, iam à missa das nove. Era o único momento em que estavam todos juntos. Em silêncio compartilhado. Sentavam-se no mesmo banco de sempre, à esquerda do altar, penúltima fileira. Depois, compravam pastel na praça. Os meninos corriam, Pedro lia o jornal no banco. Lúcia observava. Às vezes olhava para as famílias ao redor e se perguntava:
— Será que é assim com todos?
Eles não brigavam muito. Já haviam passado dessa fase. Os problemas agora eram silenciosos, acomodados nos cantos da casa como poeira que não se vê, mas se sente. E, mesmo assim, havia uma certa lealdade entre eles. Uma constância que não era mais romântica, mas sólida. Como uma parede antiga que ainda sustenta o teto, mesmo com as rachaduras.
Certa noite, depois de apagar a luz do quarto, Lúcia perguntou, no escuro:
— Você já pensou em ir embora?
Pedro demorou para responder. O silêncio se estendeu a ponto de parecer definitivo. Mas então, com a voz baixa, ele disse:
— Já. Mas nunca por querer ficar longe de você. Só por cansaço.
Ela respirou fundo. Disse apenas:
— Eu também.
E então, viraram-se para lados opostos da cama. Dormiram. No dia seguinte, o café foi coado do mesmo jeito, o pão amanhecido cortado como sempre. Os meninos brigaram por causa do controle da TV. Lúcia gritou na cozinha:
— Já pra escovar os dentes!
Pedro saiu para a oficina.
A vida seguiu, como sempre. Não havia paixão, nem grandes alegrias. Mas havia chão. E, às vezes, isso era o suficiente.
Pedro acordava todos os dias às 6h15, sem alarme. O corpo já sabia a hora. Caminhava até a cozinha, coava o café no pano, pegava o pão amanhecido da véspera e o cortava com pressa, quase sempre fazendo farelos no chão. Lúcia já estaria levantando os meninos, Henrique e Davi, de sete e dez anos, respectivamente. O mais novo protestava, o mais velho só resmungava. Era sempre assim.
- Eles precisavam dormir mais cedo – dizia Pedro, toda manhã, sem convicção.
- E você precisa ajudar mais à noite- respondia Lúcia, sem levantar os olhos do pão que agora torrava na frigideira.
Eles se cruzavam pela cozinha como se fossem trilhos de trem: paralelos, eficientes, previsíveis. Dividiam tarefas, preocupações, boletos e silêncios. Havia amor ali, talvez. Ou pelo menos algo que o lembrava de longe – cuidado, rotina, lembranças em comum. Mas a paixão, aquela que os fizera correr pela praça aos beijos escondidos na adolescência, evaporava como o café esquecido no fogão.
Pedro trabalhava na oficina do pai, agora já sua. Não reclamava. era o que sabia fazer. Lúcia dava aulas na escola da cidade, primeiro ano. Cuidava das crianças dos outros durante o dia, dos seus à noite. Havia cansaço que nenhuma noite de sono resolvia.
As conversas entre eles iam se resumindo. “Pegou o leite.”. “A reunião do Henrique é amanhã”. “O cano da pia tá vazando”. Nada que doesse, mas também nada que aquecesse. O toque, antes instintivo, tornara-se acidental. Os corpos ainda dormiam na mesma cama, mas como ilhas vizinhas que esqueceram a ponte.
Às quartas, Lúcia fazia bolo. Era uma tradição que criara com os filhos – o dia do “bolo de meio de semana”. Chocolate, cenoura, fubá, alternava os sabores, mas não o gesto. Os meninos vibravam. Pedro comia em silêncio. Às vezes elogiava, outras vezes esquecia. Lúcia notava, mas não cobrava. O bolo era mais para os meninos do que para ele. Talvez fosse uma forma de lembrar que ainda havia doçura possível, mesmo que pouca.
À noite, quando os filhos dormiam, Lúcia olhava para Pedro na poltrona, com o controle remoto na mão, e sentia uma pontada estranha, que não era exatamente tristeza. Era algo mais morno, como uma saudade de um tempo que já não sabia nomear. Em outros dias, ele olhava para ela dobrando roupas, com os cabelos presos de qualquer jeito, e sentia alguma coisa. Não era desejo, não era mágoa. Era o reconhecimento de quem vive com alguém há tempo demais para se surpreender.
A paixão, aquela que os fizera correr pela praça aos beijos escondidos na adolescência, evaporava como o café esquecido no fogão.
Nos domingos, iam à missa das nove. Era o único momento em que estavam todos juntos. Em silêncio compartilhado. Sentavam-se no mesmo banco de sempre, à esquerda do altar, penúltima fileira. Depois, compravam pastel na praça. Os meninos corriam, Pedro lia o jornal no banco. Lúcia observava. Às vezes olhava para as famílias ao redor e se perguntava:
— Será que é assim com todos?
Eles não brigavam muito. Já haviam passado dessa fase. Os problemas agora eram silenciosos, acomodados nos cantos da casa como poeira que não se vê, mas se sente. E, mesmo assim, havia uma certa lealdade entre eles. Uma constância que não era mais romântica, mas sólida. Como uma parede antiga que ainda sustenta o teto, mesmo com as rachaduras.
Certa noite, depois de apagar a luz do quarto, Lúcia perguntou, no escuro:
— Você já pensou em ir embora?
Pedro demorou para responder. O silêncio se estendeu a ponto de parecer definitivo. Mas então, com a voz baixa, ele disse:
— Já. Mas nunca por querer ficar longe de você. Só por cansaço.
Ela respirou fundo. Disse apenas:
— Eu também.
E então, viraram-se para lados opostos da cama. Dormiram. No dia seguinte, o café foi coado do mesmo jeito, o pão amanhecido cortado como sempre. Os meninos brigaram por causa do controle da TV. Lúcia gritou na cozinha:
— Já pra escovar os dentes!
Pedro saiu para a oficina.
A vida seguiu, como sempre. Não havia paixão, nem grandes alegrias. Mas havia chão. E, às vezes, isso era o suficiente.

Comentários
Postar um comentário