Coragem: Um Substantivo Feminino

 Coragem! Não é por acaso que essa palavra veste o feminino. Não por um viés ideológico ou por necessidade de rótulos, mas porque, no cotidiano, no silêncio das horas e na sobrecarga das demandas, ela se manifesta nas mulheres de maneira tão natural quanto a própria respiração.

Mulher é múltipla. Não porque escolheu ser, mas porque o mundo exige. Hoje mesmo, ao caminhar, observei mulheres em ação, simultaneamente desempenhando papéis que se sobrepõem sem se anular. Uma mãe no parque, empurrando o balanço do filho com uma mão, enquanto a outra segurava o telefone, dando instruções para sua equipe. Uma ajudante doméstica que, possivelmente, deixou os próprios filhos em casa sob os cuidados de outra mulher, enquanto cuidava de uma senhora que, certamente, em outra época, também precisou de coragem para garantir o sustento. Mulheres coordenando, mediando, resolvendo. Mulheres equilibrando tudo sem deixar nada cair.

E, quando cai, há sempre um jeito de recolher os cacos e seguir. Porque mulher não para. A bolsa, metáfora da vida, carrega o essencial e o imprevisível. Dentro dela há fraldas, chaves, batom, documentos, contas a pagar, absorventes, um bilhete da escola, um brinquedo pequeno esquecido pelo filho, um alívio para uma dor de cabeça que nem sempre tem espaço para ser sentida. E, entre tudo isso, a coragem.

Coragem para sair de casa e enfrentar um mundo que a avalia antes mesmo que ela diga uma palavra. Para sorrir mesmo quando está exausta. Para se arrumar porque a aparência será julgada antes da competência. Para trabalhar dobrado e ainda precisar provar que merece estar ali.

Coragem também é resistência física e emocional. Como bem disse uma canção: "Mulher é um bicho estranho que sangra todo mês e não morre." O corpo feminino carrega ciclos, dores, transformações. A cada novo mês, renasce, se reinventa, se fortalece. É um processo de resistência e entrega, de aceitar a natureza do próprio corpo sem que isso a diminua, sem que seja um obstáculo, mas sim uma característica essencial da sua existência.

Mas coragem não é só resistência. Coragem é se permitir sentir, se refazer, mudar de ideia sem se diminuir. É escolher o próprio caminho, mesmo que tortuoso. É enfrentar o que vem, mas também saber recuar quando necessário. Porque coragem, afinal, não é só avançar—é reconhecer o próprio ritmo, entender quando é hora de correr e quando é hora de descansar.

Sim, coragem é um substantivo feminino. E, na realidade do dia a dia, é um substantivo em constante ação.

 

Silvia Marchiori Buss

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