As Puxadas de Tapete da Vida
Há puxadas de tapete que vêm de onde menos esperamos. Às vezes, das pessoas que considerávamos amigas, colegas, parceiros de jornada. Essas, por mais dolorosas que sejam, conseguimos decifrar, ainda que a duras penas. Traições, invejas, disputas mesquinhas – tudo faz parte da cartilha humana e, com o tempo, aprendemos a lidar. Ora com um perdão, ora com um afastamento silencioso e definitivo. São dores que podem ser compreendidas e, de alguma forma, superadas.
Mas há outro tipo de puxada de tapete, aquela que vem da
própria vida, sem aviso, sem lógica aparente. Essa nos lança no chão sem sequer
termos tido tempo de erguer as mãos em defesa. Um luto inesperado, uma doença
devastadora, a perda de um sonho construído com zelo e esperança. Essas são as
quedas que nos perguntam, sem piedade: e agora? O que fazer quando não há um
culpado a quem apontar o dedo, quando o motivo da nossa dor está simplesmente
nas engrenagens misteriosas do existir?
A grande questão é: temos escolha diante dessas puxadas de
tapete da vida? O instinto nos diz que não. O sofrimento nos imobiliza, e
parece que o único caminho é a resignação. Mas será mesmo? Talvez, dentro da
nossa impotência, reste uma fresta de possibilidade: escolher como nos
levantamos.
Podemos permitir que a amargura nos domine, que a dor nos
aprisione e que a injustiça do acaso nos faça definhar. Ou podemos, aos poucos,
tatear um novo jeito de caminhar, ainda que sem o mesmo tapete sob os pés.
Talvez seja a hora de pisar o chão nu, sentir sua dureza, entender que, mesmo
sem a ilusão de segurança, ainda podemos dar passos.
As puxadas de tapete da vida não nos perguntam se queremos
vivê-las. Elas vêm e pronto. Mas a resposta que damos a elas... essa, sim, é
nossa escolha.
Silvia Marchiori Buss
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