A Música Que nos Traduz

Houve um tempo em que a música falava. Não apenas sussurrava ao fundo de uma melodia apressada, mas contava histórias, bordava sentimentos em notas suaves, pintava saudades com acordes e memórias. As canções eram poemas musicados, cada palavra encaixada como um verso vivo, capaz de atravessar gerações e ainda assim permanecer.

A melodia vestia-se de poesia, o amor dançava nas entrelinhas, e até a dor encontrava harmonia nos versos que curavam as feridas. Cantava-se o tempo, a espera, o abraço, a fé que sustenta, o adeus sem cansaço, a estrada aberta, o vento no rosto, um grito de vida em cada compasso. A música era ponte entre almas, refúgio para os dias cinzentos, celebração das alegrias simples.

Mas os tempos mudaram, e com eles, a pressa chegou. Os versos se tornaram descartáveis, as rimas perderam-se na ventania, as palavras flutuam vazias, sem peso, sem pele, sem alma, sem cor. O que antes era sentido, agora se dissolve em repetições previsíveis e batidas calculadas para durar apenas o instante de um refrão chiclete. O que foi feito da música que nos traduzia?

Não é saudosismo, é constatação. O ontem soube criar canções que ultrapassaram os anos, resistiram ao tempo, habitaram corações. O hoje, ao contrário, parece se contentar com canções efêmeras, que nascem e desaparecem sem deixar rastros. Não se trata de recusar o novo, mas de desejar que a música volte a carregar significado, que suas letras toquem a pele, que os acordes despertem emoções reais.

A música ainda vive, resiste no peito, nos olhos de quem já sentiu seu calor. Nos versos que tocam sem ferir o ouvido, nas canções que abraçam e falam de amor. Que a gente escute, que a gente sinta, que a gente não deixe morrer essa voz. Porque enquanto houver melodia com alma, haverá poesia pulsando em nós.

Silvia Marchiori Buss

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