Sem Título

Entre o silêncio prolongado dos dias que se arrastam e a urgente vontade de fugir da dor que insiste em marcar cada instante, descubro-me num limiar delicado – um espaço onde o efêmero e o eterno se encontram, entre o passado que se desfaz e o presente que se reconstrói lentamente.

Neste limiar, anseio que o tempo voe, levando consigo as cicatrizes que o tempo gravou em meu ser, enquanto temo que a pressa inexorável do relógio desfaça, sem piedade, o intricado mosaico de sentimentos que carrego. Cada segundo se transforma num desafio, numa encruzilhada onde memórias, saudade e o luto incessante se entrelaçam em uma dança silenciosa e inevitável.

Viver, nesse compasso hesitante, é percorrer uma estrada solitária onde o coração, muitas vezes incompreendido, pulsa em sintonia com a própria dor. Em meio aos clichês e breves alentos que a vida oferece como possíveis refúgios, busco na simplicidade das palavras um bálsamo que, mesmo que toque apenas a superfície, permita que o interior encontre uma centelha de consolo.

Dia após dia, enquanto o tempo segue seu curso implacável, a saudade se intensifica, lembrando-me que o que se foi jamais poderá ser resgatado na totalidade. Essa ausência, que pesa como um eco distante, alimenta a esperança tênue de que fragmentos do passado possam, de alguma forma, aquecer os recantos mais frios da alma. Ou, então, que na arte de escrever se encontre o caminho para transmutar a angústia em poesia – em versos que, embora sem título, carregam um significado profundo e autêntico.

Cada palavra escrita torna-se um ato de resistência, uma forma de celebrar a complexidade de uma existência marcada pelo luto e pela beleza contida em cada emoção vivida. Assim, aprendo que cada dor e cada falta são partes essenciais de uma jornada única, onde a saudade e a esperança se entrelaçam em um baile sutil, desenhando a arte de simplesmente existir.

No entrelaçar desses sentimentos, percebo que a escrita é o espelho onde se refletem as cicatrizes e as alegrias, onde a dor se transforma em aprendizado e o luto em um testemunho silencioso da vida. Fazer das palavras um refúgio é aceitar que, mesmo na fragilidade, há uma força resiliente – a força de transformar o sofrimento em uma poesia que é, ao mesmo tempo, íntima e universal.

 

Silvia Marchiori Buss

 

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