Se eu tivesse asas

Se eu tivesse asas, sobrevoaria o tempo e a saudade. Pairaria sobre os dias que passaram velozes demais, estenderia as mãos para tocar aqueles que o tempo levou para longe. Se eu tivesse asas, atravessaria o céu em busca de todos os abraços que ficaram suspensos no ar, todas as palavras não ditas, os sorrisos que o destino interrompeu.

Voaria para além das dores e das ausências, encontrando alívio na leveza do vento, na carícia do sol sobre as penas imaginárias que me sustentariam. De lá do alto, veria a vida com outra perspectiva, onde as distâncias seriam apenas ilusão e os desencontros, meros intervalos entre um reencontro e outro.

Se eu tivesse asas, me permitiria flutuar sobre os dias nublados e ver o sol escondido acima das nuvens. Entenderia que toda tempestade é passageira e que, depois da chuva, a terra exala perfume de recomeço. Levaria comigo aqueles que amo, pousando suavemente nos campos da lembrança, onde as memórias florescem sem medo do tempo.

Mas não tenho asas. Tenho pés que pisam o chão da realidade, olhos que vertem lágrimas de saudade, mãos que escrevem na tentativa de tocar o inalcançável. No entanto, se fecho os olhos e deixo a alma livre, descubro que o amor nos dá asas invisíveis. São elas que me levam ao encontro dos que partiram, que me permitem sentir a presença dos que já não posso abraçar.

Se eu tivesse asas... Ah, mas talvez já as tenha. Talvez todos as tenhamos, só precisamos lembrar como usá-las.

 

Silvia Marchiori Buss

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Energia na Parede

Navegando na Ausência

O Silêncio da Professora