Que Falta Você me Faz
Era uma manhã como tantas outras, mas o vazio tinha peso. O sol entrava pela janela da cozinha, pintando de dourado a mesa onde duas xícaras costumavam repousar. Agora, apenas uma esperava pelo café. A outra, ausente, parecia gritar silenciosamente a falta que ele fazia.
Ela puxou a cadeira e sentou-se com o jornal na mão, um
hábito antigo que insistia em manter, mesmo que as notícias já não a
interessassem como antes. As palavras pareciam dançar diante de seus olhos, mas
não liam a história do mundo. Lia a história da falta, de uma ausência que
habitava a casa inteira.
Na sala, a poltrona dele permanecia intocada. O tecido
surrado nos braços denunciava as tardes que ele passara ali, lendo ou
cochilando ao som de algum programa de rádio. Agora, era um monumento ao
silêncio, à ausência que parecia maior do que a própria casa.
Mas a ausência dele não estava apenas nos espaços vazios.
Estava nos detalhes. No cheiro do perfume que ele sempre usava antes de sair.
Na maneira como dobrava os guardanapos, com um vinco perfeito que ela jamais
conseguia reproduzir. E no "bom dia" que ele oferecia aos pássaros no
quintal, um ritual que ela agora observava de longe, incapaz de assumir como
seu.
Conforme os dias passavam, ela percebeu que fugia. Fugir dos
lugares que juntos haviam construído, das memórias que pareciam vivas demais.
Mas, em uma tarde morna, algo mudou. Ao abrir o armário da cozinha, encontrou o
caderno de receitas que ele havia começado a escrever para ela. "Para que
nunca esqueça do sabor das coisas boas", dizia a dedicatória na primeira
página.
Ela folheou aquelas páginas, cada uma marcada pelo cuidado
que ele colocava em cada receita. Ao parar na do bolo de cenoura, que sempre
fora o favorito dele, sentiu uma vontade inexplicável de recriar aquele sabor.
Com as mãos trêmulas, separou os ingredientes e seguiu os passos detalhados com
uma precisão quase reverente. O cheiro que preencheu a casa não era apenas o do
bolo. Era ele, rindo de algo que ela disse na cozinha, dizendo que o cheiro era
um "abraço quentinho".
Quando o bolo ficou pronto, sentou-se novamente à mesa.
Diante da xícara solitária, cortou uma fatia e deu uma mordida. E ali, no sabor
familiar, algo se quebrou dentro dela. Não era apenas dor. Era também gratidão.
Ele ainda estava ali, em cada detalhe, em cada memória que construíram juntos.
Naquela noite, decidiu que iria revisitar todos os lugares
que um dia haviam sido deles. Não para se perder na saudade, mas para se
reencontrar com ele, com tudo que tinham sido. No parque onde costumavam
caminhar, ouviu sua voz imaginária dizendo que ela precisava se permitir
sorrir. No banco da pracinha, onde ele sempre comprava pipoca para os dois,
sentiu seu calor no vento morno que acariciava seu rosto.
E, assim, em pequenos gestos, ele se tornava menos ausente.
Não porque voltasse, mas porque ela permitia que ele continuasse vivo nas
lembranças. A dor da perda nunca desapareceria, mas agora convivia com algo
maior: a certeza de que o amor vivido não morre. Ele apenas se transforma, como
uma bússola silenciosa que aponta para a direção dos passos que ainda restam a
ser dados.
No fim daquele dia, enquanto o sol se punha, ela se sentou
na poltrona dele. Fechou os olhos e sussurrou: "Que falta você me faz, mas
que sorte a minha por ter tido você."
Silvia Marchiori Buss
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