Procurando outra de ti
Ele a encontrou num dia de ventos inquietos. As folhas dançavam sobre a calçada, desenhando caminhos invisíveis, e ele seguiu um deles, sem saber que o levava ao destino.
Ela estava ali, encostada na vitrine de uma livraria antiga,
olhos presos num volume de capa azul. Quando ergueu o rosto, os olhares se
entrelaçaram como fitas no ar.
— Esse livro fala de reencontros — ela disse, como se já
soubesse o que ele sentia.
Ele sorriu, sem pressa de responder. Sabia, no âmago, que
não era a primeira vez que seus destinos se cruzavam. Talvez em outro tempo,
outra vida, sob um céu diferente, suas almas já tivessem se reconhecido.
Os dias seguintes foram costurados por conversas demoradas e
silêncios que falavam por si. Ele lhe escrevia cartas, mesmo estando ao seu
lado. Ela lhe recitava versos que trazia no coração.
Passeavam sem destino por ruas escondidas da cidade,
descobrindo recantos onde o tempo parecia suspenso. Sentavam-se em praças
floridas, e ele a ouvia contar histórias de infância, enquanto ela aprendia a
decifrar os mistérios dos olhos dele.
— Te procurei em tantos rostos, em tantos sonhos... — ele
murmurou certa noite, quando caminhavam à beira do rio.
Ela passou os dedos sobre sua mão, traçando caminhos
invisíveis como as folhas ao vento.
— E se a verdade for que nunca deixamos de nos encontrar?
O tempo avançou, mas nunca os levou. Amaram-se com a
delicadeza dos versos antigos, sem pressa, sem medo. Cada ruga que surgia era
apenas um novo capítulo da história que escreveram juntos.
Foram cúmplices em dias de sol e de tempestades.
Compartilharam sorrisos e lágrimas, dançaram sob a chuva e fizeram promessas
que nunca precisaram dizer em voz alta. Pois tudo entre eles era entendimento.
Quando o fim chegou, não foi um adeus. Foi apenas um eco do
que sempre souberam: não há despedidas para quem se encontra em cada fragmento
do tempo.
Nos dias seguintes à sua partida, ele ainda ouvia sua voz
nos corredores da casa, sentia seu perfume entre as páginas dos livros que ela
folheava. Sabia que, de alguma forma, ela permanecia.
E ele, que seguia respirando na ausência dela, sabia — ainda
a procuraria, mas não para achá-la outra vez. Apenas para reconhecer, em cada
coisa bela, um pedaço do que sempre foi dela.
Porque certos amores nunca terminam. Apenas mudam de lugar.
Silvia Marchiori Buss
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