Palavras no Silêncio

 A casa do lago repousava entre as árvores, refletida na água calma como um sonho suspenso entre o tempo e a eternidade. Os peixes deslizavam silenciosos sob a superfície cristalina, e o vento movia os ramos das árvores com a suavidade de uma canção inaudível. Dentro daquela casa, vivia um casal que não precisava de palavras para se entender. O silêncio entre eles não era vazio; era preenchido por décadas de cumplicidade, por gestos que falavam mais que frases inteiras, por olhares que contavam histórias que só eles conheciam.

Miguel e Helena haviam passado juntos mais de meio século. O tempo, longe de apagar a paixão ou desgastar a harmonia, havia transformado o amor deles em uma obra-prima lapidada com paciência. Como o rio que esculpe a pedra ao longo dos anos, eles haviam moldado um ao outro, até que suas almas se encaixassem perfeitamente. Não precisavam discutir, pois sabiam exatamente o que o outro desejava. Não precisavam perguntar, pois adivinhavam as respostas no brilho dos olhos. E, assim, viviam na mais perfeita paz, onde o silêncio se tornara um idioma próprio, exclusivo deles.

Todas as manhãs, Miguel acordava antes do sol. Deixava a cama com o cuidado de não perturbar Helena e preparava café, permitindo que o aroma quente a despertasse suavemente. Quando ela finalmente se levantava, encontrava sua xícara preferida já cheia e um sorriso tranquilo esperando por ela. Sentavam-se na varanda de madeira, lado a lado, assistindo ao lago refletir os primeiros raios do dia. Era nesses momentos que se comunicavam sem palavras: Miguel segurava a mão de Helena, um leve aperto significando “Bom dia, meu amor”. Ela retribuía, com um carinho no dorso da mão dele, que dizia: “Bom dia, meu bem, que bom que estamos aqui”.

Durante o dia, Miguel cuidava do jardim enquanto Helena colhia flores para enfeitar a casa. Quando chovia, sentavam-se perto da lareira, ele lendo em voz baixa enquanto ela tricotava. Mas, às vezes, nem mesmo a leitura era necessária. Bastava o crepitar do fogo, o som suave da chuva no telhado, e o calor um do outro. O silêncio não era incômodo; era uma presença. Uma extensão do amor que os envolvia, como uma melodia que só eles podiam ouvir.

Eram os detalhes que tornavam aquele silêncio tão eloquente. O modo como Miguel ajeitava o xale nos ombros de Helena sem que ela pedisse. O olhar de Helena que acompanhava Miguel enquanto ele regava as plantas, sabendo que cada gota de água era um gesto de carinho. A maneira como um sentia quando o outro precisava de um café, de um afago, de um instante de descanso. Havia mais amor na quietude daqueles dias do que em muitas declarações efusivas.

À noite, caminhavam até o lago, sem pressa, sem necessidade de falar. O céu estrelado era testemunha da plenitude que compartilhavam. Sentavam-se no velho banco de madeira e apenas existiam, juntos, na simplicidade de um amor eterno. O vento brincava com os cabelos brancos deles, e a água refletia a cumplicidade que haviam construído ao longo da vida.

O tempo passou, mas nada mudou. A casa do lago continuou sendo um refúgio de paz, e o amor de Miguel e Helena permaneceu tão sereno quanto as águas que os cercavam. No fim, quando um partisse antes do outro, sabia-se que o silêncio permaneceria, porque o amor deles era eterno. E enquanto o lago existisse, enquanto o vento soprasse entre as árvores, enquanto os peixes nadassem livres e silenciosos, a presença de um sempre sussurraria ao coração do outro.

Porque havia palavras que não precisavam ser ditas. E havia amores que nunca precisavam de som para existir.

 



Silvia Marchiori Buss

 

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