O Som das Ondas

O cheiro do mar já era uma lembrança antiga, mas quando Helena pisou na areia, sentiu que voltava para casa. Fazia mais de trinta anos que não visitava aquela praia. O vento carregava consigo o sabor salgado da infância, dos dias passados entre conchas, castelos e risadas que hoje ecoavam apenas dentro dela.

Havia prometido a si mesma que nunca retornaria, mas a vida tem maneiras estranhas de nos puxar de volta. Desta vez, o motivo era a despedida de sua mãe. Dona Amália tinha pedido que suas cinzas fossem jogadas no mar ao entardecer. "Quero descansar onde sempre fui feliz", dissera ela na última vez que conseguiu falar. E assim, Helena estava ali, carregando nas mãos uma pequena urna e no peito um oceano de lembranças.

Enquanto caminhava pela areia fina, avistou a velha casa de madeira, agora desgastada pelo tempo. As janelas estavam fechadas, mas Helena ainda conseguia ouvir o som das conversas noturnas, os sussurros entremeados pelo vento e o tilintar das louças na mesa. Seu pai nunca voltara depois que a mãe adoeceu. Partira sem olhar para trás, deixando para Helena a responsabilidade de cuidar de tudo. Agora, ela estava sozinha.

Sentou-se em uma rocha perto da beira do mar e fechou os olhos. A lembrança da mãe vinha nítida: os cabelos presos no alto da cabeça, as mãos ágeis costurando retalhos, a voz firme contando histórias sobre sereias que protegiam as mulheres do mar. "Quando a saudade for grande demais, fale com as ondas", dizia ela. "Elas sempre trazem respostas."

O sol já se inclinava para o ocaso quando Helena abriu a tampa da urna. A areia sob seus pés estava fria, e o vento jogava seus cabelos para trás. Aproximou-se da água, deixando que as ondas lambessem seus tornozelos. Então, com um gesto lento e cuidadoso, entregou as cinzas ao mar.

Por um instante, tudo ficou em silêncio. Nem o vento, nem as ondas, nem os pássaros interromperam aquele momento. Helena esperou. O que, não sabia ao certo. Talvez uma resposta, um sinal. Algo que lhe dissesse que sua mãe estava em paz. E então, veio o som. Um murmúrio suave das ondas quebrando, misturado ao sussurro do vento. Como um eco distante de uma canção que Helena conhecia bem. Uma canção de ninar.

As lágrimas vieram sem aviso, rolando quentes por seu rosto. Pela primeira vez em anos, sentiu-se abraçada, envolta por algo que não podia ver, mas que estava ali. Sentou-se na areia, fechando os olhos de novo. E enquanto o sol se escondia no horizonte, Helena sussurrou para as ondas:

"Obrigada, mãe."

E o mar, com sua infinita sabedoria, respondeu em um sussurro de espuma.

 


Silvia Marchiori Buss

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