O Homem Que Sabia Demais
Havia um homem na cidade que era chamado José Alencar, mas todos o chamavam de Zé-Sabe-Tudo. Não havia assunto que escapasse à sua opinião, nem fato que ele não alegasse conhecer melhor que qualquer outro mortal. Dos segredos da física quântica às nuances das receitas caseiras de biscoito amanteigado, Zé-Sabe-Tudo tinha sempre algo a acrescentar, geralmente de maneira enfática e, quase sempre, irritante.
Seu “saber” era uma lenda que transcendeu as gerações. Se um
jovem falava de astrofísica, Zé-Sabe-Tudo rapidamente citava um artigo obscuro
de uma revista especializada que nem os especialistas conheciam. Se uma idosa
lembrava os velhos tempos, Zé jurava ter conhecido pessoalmente os
protagonistas das histórias. Ele dizia ter vivido tantas vidas que, fosse tudo
verdade, deveria ser imortal.
A fama de Zé começou a pesar quando ele, inadvertidamente,
passou a se meter em assuntos que não deveria. O primeiro incidente ocorreu na
missa dominical. O padre Ernesto, durante o sermão, explicava a passagem sobre
o Sermão da Montanha, quando Zé interrompeu:
— Na verdade, padre, há uma interpretação apócrifa que
sugere que o verdadeiro texto dizia “Bem-aventurados os que cozinham para os
pobres”, e não os que têm fome e sede de justiça.
O olhar do padre Ernesto poderia ter transformado vinho em
vinagre, mas Zé-Sabe-Tudo não percebeu. Satisfeito, continuou a frequentar a
missa e a corrigir o padre com uma audácia que os fiéis interpretaram como
heresia ou pura tolice.
Na delegacia, o delegado Antunes não tinha a mesma
paciência. Em certa ocasião, enquanto investigava um roubo, Zé-Sabe-Tudo não
resistiu:
— Ora, delegado, isso é claramente obra de um profissional.
A pegada é de um sapato italiano, modelo Ferragamo. Conheço bem esse tipo de
sola.
— Você é perito, Zé?— perguntou o delegado, franzindo as
sobrancelhas.
— Não oficialmente, mas li muito sobre criminologia.
Antunes limitou-se a balbuciar um “humpf” antes de convidar
Zé a se retirar. A paciência da cidade inteira estava por um fio.
Mas foi no dia em que Zé-Sabe-Tudo resolveu corrigir a
receita de nhoque de Dona Marieta, a matriarca mais temida e respeitada do
bairro, que a situação atingiu o auge. Durante o almoço comunitário da
quermesse, Zé apontou para os nhoques no prato de Dona Marieta e declarou:
— A textura está errada. O segredo é usar menos farinha e
mais batata. Aprendi isso com um chef estrelado em Roma.
Dona Marieta, com seus 87 anos de tradição culinária e um
temperamento que faria um vulcão parecer uma vela acesa, levantou-se com tal
imponência que o salão inteiro silenciou. Ela se aproximou de Zé com a
solenidade de um juiz prestes a sentenciar a pena máxima e disse:
— Meu filho, se sabe tanto, deveria abrir um restaurante.
Até lá, cale a boca e coma.
A risada coletiva ecoou por dias. Foi a primeira vez que
Zé-Sabe-Tudo ficou sem palavras.
Daquele dia em diante, algo mudou. Zé ainda sabia tudo, ou
pelo menos achava que sabia, mas aprendeu a falar menos. Com o tempo, a cidade
começou a perceber que ele não era tão insuportável assim – especialmente
quando estava calado.
Houve, porém, um único momento em que seu vasto “saber” foi
genuinamente útil. Quando uma tempestade derrubou a ponte principal da cidade,
isolando a comunidade, Zé-Sabe-Tudo surgiu com uma ideia. Lembrava-se de um
livro antigo que descrevia como construir pontes improvisadas com madeira e
corda. Com a ajuda de outros moradores, ele liderou a reconstrução temporária,
ganhando aplausos e um inesperado respeito.
Depois disso, Zé tornou-se uma figura quase querida. Sua
tragédia era cómica: um homem que sabia demais, mas que aprendeu, aos trancos e
barrancos, que o verdadeiro segredo da sabedoria é saber quando ficar em
silêncio.
Seu “saber” era uma lenda que transcendeu as gerações. Se um jovem falava de astrofísica, Zé-Sabe-Tudo rapidamente citava um artigo obscuro de uma revista especializada que nem os especialistas conheciam. Se uma idosa lembrava os velhos tempos, Zé jurava ter conhecido pessoalmente os protagonistas das histórias. Ele dizia ter vivido tantas vidas que, fosse tudo verdade, deveria ser imortal.
A fama de Zé começou a pesar quando ele, inadvertidamente, passou a se meter em assuntos que não deveria. O primeiro incidente ocorreu na missa dominical. O padre Ernesto, durante o sermão, explicava a passagem sobre o Sermão da Montanha, quando Zé interrompeu:
— Na verdade, padre, há uma interpretação apócrifa que sugere que o verdadeiro texto dizia “Bem-aventurados os que cozinham para os pobres”, e não os que têm fome e sede de justiça.
O olhar do padre Ernesto poderia ter transformado vinho em vinagre, mas Zé-Sabe-Tudo não percebeu. Satisfeito, continuou a frequentar a missa e a corrigir o padre com uma audácia que os fiéis interpretaram como heresia ou pura tolice.
Na delegacia, o delegado Antunes não tinha a mesma paciência. Em certa ocasião, enquanto investigava um roubo, Zé-Sabe-Tudo não resistiu:
— Ora, delegado, isso é claramente obra de um profissional. A pegada é de um sapato italiano, modelo Ferragamo. Conheço bem esse tipo de sola.
— Você é perito, Zé?— perguntou o delegado, franzindo as sobrancelhas.
— Não oficialmente, mas li muito sobre criminologia.
Antunes limitou-se a balbuciar um “humpf” antes de convidar Zé a se retirar. A paciência da cidade inteira estava por um fio.
Mas foi no dia em que Zé-Sabe-Tudo resolveu corrigir a receita de nhoque de Dona Marieta, a matriarca mais temida e respeitada do bairro, que a situação atingiu o auge. Durante o almoço comunitário da quermesse, Zé apontou para os nhoques no prato de Dona Marieta e declarou:
— A textura está errada. O segredo é usar menos farinha e mais batata. Aprendi isso com um chef estrelado em Roma.
Dona Marieta, com seus 87 anos de tradição culinária e um temperamento que faria um vulcão parecer uma vela acesa, levantou-se com tal imponência que o salão inteiro silenciou. Ela se aproximou de Zé com a solenidade de um juiz prestes a sentenciar a pena máxima e disse:
— Meu filho, se sabe tanto, deveria abrir um restaurante. Até lá, cale a boca e coma.
A risada coletiva ecoou por dias. Foi a primeira vez que Zé-Sabe-Tudo ficou sem palavras.
Daquele dia em diante, algo mudou. Zé ainda sabia tudo, ou pelo menos achava que sabia, mas aprendeu a falar menos. Com o tempo, a cidade começou a perceber que ele não era tão insuportável assim – especialmente quando estava calado.
Houve, porém, um único momento em que seu vasto “saber” foi genuinamente útil. Quando uma tempestade derrubou a ponte principal da cidade, isolando a comunidade, Zé-Sabe-Tudo surgiu com uma ideia. Lembrava-se de um livro antigo que descrevia como construir pontes improvisadas com madeira e corda. Com a ajuda de outros moradores, ele liderou a reconstrução temporária, ganhando aplausos e um inesperado respeito.
Depois disso, Zé tornou-se uma figura quase querida. Sua tragédia era cómica: um homem que sabia demais, mas que aprendeu, aos trancos e barrancos, que o verdadeiro segredo da sabedoria é saber quando ficar em silêncio.
Silvia Marchiori Buss

Comentários
Postar um comentário