Nem Chorando um Oceano
Diante da morte, somos reduzidos à nossa própria impotência. Não há palavras que a detenham, não há gestos que a afastem. Ela chega sem pedir licença, sem avisar, sem se importar com os planos que fizemos, com os sonhos que estavam apenas começando, com o amor que ainda tínhamos para dar. Vem como um vento que apaga a vela, deixando-nos na escuridão de um vazio que jamais pode ser preenchido por completo.
Talvez por isso a chamemos de destino: precisamos encontrar
um nome para aquilo que não conseguimos compreender. Talvez seja por isso que a
travestimos de fé: a aceitação parece o único caminho possível para seguir em
frente. Mas como aceitar? Como continuar respirando quando tudo ao redor parece
sufocar? Como caminhar quando cada passo carrega o peso da ausência?
Dizem que o tempo ameniza a dor, que transforma o luto em
lembrança, que ensina a viver sem a presença física de quem partiu. Mas o tempo
não apaga a ausência. O tempo apenas molda a falta, tornando-a parte de quem
somos. Aprendemos a conviver com o silêncio que ficou, com os espaços vazios na
casa, na cama, no coração. Aprendemos a sorrir com lágrimas escondidas, a
seguir com a saudade cravada na alma.
E então percebemos: nem chorando um oceano ele volta. Nem
derramando todas as lágrimas do mundo podemos refazer o que foi interrompido. E
nos damos conta de como a vida é breve, como somos frágeis diante dela. Quantos
momentos deixamos escapar por entre os dedos? Quantas palavras ficaram por
dizer? Quantos abraços foram adiados?
A verdade é que vivemos enjaulados dentro da rotina, das
preocupações diárias, do medo de sentir demais. E então, num instante, tudo
muda. O que antes era um amanhã garantido se transforma em um nunca mais.
O que nos resta? Aceitar? Submeter-nos à roda do tempo, ao
ciclo da existência? Talvez. Mas talvez também reste algo mais: o compromisso
de honrar a vida daqueles que partiram, vivendo plenamente a nossa. Sentindo
com intensidade. Amando sem reservas. Aproveitando cada instante como se fosse
o último, porque um dia será.
A morte nos ensina, ainda que seja a lição mais dura: não
devemos esperar para dizer "eu te amo", para ouvir a canção
preferida, para preparar aquele prato especial, para rir até a barriga doer,
para sentir a brisa do mar e olhar a lua mais cheia de todas.
Porque, no fim das contas, a morte pode ser incontrolável,
mas a vida ainda nos pertence. E, enquanto respiramos, temos a chance de
torná-la menos sobre a ausência e mais sobre a presença do amor que nunca
morre.
Silvia Marchiori Buss
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