Nas Asas de um Pássaro
O vento soprava suave naquela manhã dourada, e ele sentia cada corrente de ar como um sussurro antigo, um chamado ancestral. Seu nome era Auris, um pequeno pardal de penas cor de outono, que vivia entre os galhos altos de uma velha figueira.
Auris não conhecia o peso das preocupações humanas, mas
carregava no peito um desejo profundo: ver o mundo além dos telhados vermelhos
e das ruas de paralelepípedos onde crescera. Sentia que havia algo mais, algo
que o chamava além do horizonte, algo que pulsava no ritmo de suas asas
inquietas.
Certa vez, ao amanhecer, encontrou um homem solitário
sentado em um banco da praça. Tinha olhos cansados e uma tristeza que se
dissolvia no vapor da xícara de café esquecida ao lado. Auris pousou perto,
curioso. O homem ergueu os olhos e sorriu, um sorriso breve, quase esquecido.
— Ah, se eu tivesse asas... — murmurou o homem, como se
falasse para o vento.
O pequeno pardal inclinou a cabeça, intrigado. Não
compreendia o peso do corpo humano, a gravidade das dores que se acumulam nos
corações que caminham sobre a terra. Mas, naquele instante, algo dentro dele
despertou. Um desejo, um impulso.
Auris bateu as asas com força e elevou-se ao céu azul. Voou
em círculos acima do homem, desenhando espirais invisíveis no ar. A luz do sol
tocava suas penas com um brilho dourado, e a brisa fresca parecia cantar
canções esquecidas.
Lá de cima, viu o mundo de outra forma. As ruas não eram
apenas caminhos; eram veias vivas pulsando com histórias. Os telhados não eram
limites; eram degraus para os sonhos. E os homens, mesmo os mais solitários,
tinham em si a mesma fome de altura, a mesma sede de infinito.
Quando desceu, pousando novamente ao lado do homem, este
fechou os olhos por um instante. Respirou fundo, como se seu peito também se
abrisse para um voo. Ao abri-los, havia algo novo ali. Uma centelha, um
recomeço.
O pardal piou suavemente, como quem segreda um segredo.
Então, sem pressa, alçou voo mais uma vez, levando consigo não apenas o próprio
sonho, mas também o desejo silencioso daquele homem: o de um dia, talvez,
também poder voar.
Silvia Marchiori Buss
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