Eu Sempre Estive Lá
Desde o primeiro suspiro, eu sempre estive lá.
Quando ela nasceu, a sala fria do hospital ecoava os choros de um recém-nascido que parecia lutar contra a própria chegada ao mundo. Eu a observei, um pequeno ser de cabelos ralos e olhos fechados, como se temesse abrir as pálpebras para encarar a realidade. Sua mãe não sobreviveu ao parto, e o pai, um homem desajeitado e em choque, mal sabia como segurar aquele pedaço frágil de vida.
“Ela nunca vai estar sozinha”, prometi. Mesmo que ninguém pudesse me ouvir, eu sabia que aquela promessa seria mantida.
Eu estava lá quando ela deu os primeiros passos no chão de madeira da casa dos avós, cambaleando como um pequeno passarinho aprendendo a voar. Estava lá nas madrugadas frias em que a febre a dominava, enquanto sua avó rezava baixinho ao lado da cama, com medo de que ela também fosse levada.
Na escola, quando era deixada sozinha no intervalo porque nenhuma das crianças queria brincar com a menina que parecia diferente, eu estava ali. Eu a observei, sentada no canto do pátio, arrancando pequenos pedaços do sanduíche, enquanto segurava as lágrimas. E naqueles momentos em que ela levantava os olhos para o céu como se perguntasse por quê, eu desejava poder responder.
Os anos passaram, e a menina se tornou adolescente. A dor de ser invisível para os outros se transformou em um escudo de indiferença. Mas eu via. Eu sempre via. Eu estava lá na primeira vez que ela se cortou com um caco de vidro encontrado no porão. Estava lá quando ela chorava baixinho no chuveiro, porque achava que ali suas lágrimas se perderiam na água. Eu queria tocá-la, segurá-la, dizer que tudo ficaria bem, mas meu lugar era outro. Sempre foi.
Quando ela se apaixonou pela primeira vez, eu estava ali também. O brilho nos olhos dela quando recebeu aquele bilhete amassado no corredor da escola era algo que eu jamais esqueceria. E quando o rapaz a deixou de lado por outra, eu senti o peso do mundo sobre os ombros dela. Eu a vi se trancar no quarto por dias, recusando-se a comer, enquanto os avós batiam na porta com preocupação. E eu estava lá, sempre lá.
No dia em que perdeu o avô, seu único referencial de estabilidade, ela caminhou sozinha até o cemitério, ignorando os olhares dos outros. Sentou-se ao lado do túmulo por horas, murmurando palavras que nem o vento conseguiu carregar. Eu permaneci ao lado dela, invisível, mas constante.
Quando os anos a levaram para longe daquela cidade pequena, eu a acompanhei. Em um apartamento minúsculo em uma metópole caótica, eu a vi reinventar-se. Era como se ela estivesse tentando construir uma nova vida sobre as ruínas do passado, mas os fantasmas a perseguiam. Ela sorria para os colegas de trabalho, mas, à noite, encarava o teto, perdida em pensamentos que eu não podia acessar. Estava ali também quando o frasco de comprimidos foi aberto com mãos trêmulas. E fiquei ao seu lado enquanto ela hesitava, finalmente jogando-os no lixo, como se desafiasse a própria escuridão.
Houve momentos de alegria também. O dia em que conseguiu publicar seu primeiro livro, por exemplo. Ela chorou de alegria ao segurar a edição em mãos, como se aquele fosse o único momento em que o mundo a reconhecia. E eu estava ali, no silêncio de sua realização, compartilhando sua felicidade.
No entanto, o destino não era gentil. Um diagnóstico veio, inesperado e cruel. Eu estive lá, no consultório, enquanto o médico explicava, em termos frios, as limitações e os desafios. Ela ouviu tudo em silêncio, mas eu vi a batalha travada dentro dela. Vi sua força, sua resistência, e o modo como ela se recusou a ser definida por aquilo.
E agora, aqui estamos. Ela está deitada em uma cama de hospital, seus cabelos grisalhos espalhados pelo travesseiro. A respiração é fraca, mas constante. O quarto está vazio, exceto por mim. Sempre por mim.
“Eu nunca estive sozinha”, ela sussurra, com um sorriso suave que mal ergue os lábios. Seu olhar vagueia pelo teto, mas eu sei que ela me sente. Pela primeira vez, parece que ela sabe que eu estou aqui.
Quando sua última respiração se esvai, eu a acolho. Porque eu sempre estive lá. Desde o primeiro momento, eu fui sua sombra, sua companhia invisível, sua constante.
E agora, juntos, atravessamos a fronteira para onde a solidão nunca mais poderá alcançá-la.
Quando ela nasceu, a sala fria do hospital ecoava os choros de um recém-nascido que parecia lutar contra a própria chegada ao mundo. Eu a observei, um pequeno ser de cabelos ralos e olhos fechados, como se temesse abrir as pálpebras para encarar a realidade. Sua mãe não sobreviveu ao parto, e o pai, um homem desajeitado e em choque, mal sabia como segurar aquele pedaço frágil de vida.
“Ela nunca vai estar sozinha”, prometi. Mesmo que ninguém pudesse me ouvir, eu sabia que aquela promessa seria mantida.
Eu estava lá quando ela deu os primeiros passos no chão de madeira da casa dos avós, cambaleando como um pequeno passarinho aprendendo a voar. Estava lá nas madrugadas frias em que a febre a dominava, enquanto sua avó rezava baixinho ao lado da cama, com medo de que ela também fosse levada.
Na escola, quando era deixada sozinha no intervalo porque nenhuma das crianças queria brincar com a menina que parecia diferente, eu estava ali. Eu a observei, sentada no canto do pátio, arrancando pequenos pedaços do sanduíche, enquanto segurava as lágrimas. E naqueles momentos em que ela levantava os olhos para o céu como se perguntasse por quê, eu desejava poder responder.
Os anos passaram, e a menina se tornou adolescente. A dor de ser invisível para os outros se transformou em um escudo de indiferença. Mas eu via. Eu sempre via. Eu estava lá na primeira vez que ela se cortou com um caco de vidro encontrado no porão. Estava lá quando ela chorava baixinho no chuveiro, porque achava que ali suas lágrimas se perderiam na água. Eu queria tocá-la, segurá-la, dizer que tudo ficaria bem, mas meu lugar era outro. Sempre foi.
Quando ela se apaixonou pela primeira vez, eu estava ali também. O brilho nos olhos dela quando recebeu aquele bilhete amassado no corredor da escola era algo que eu jamais esqueceria. E quando o rapaz a deixou de lado por outra, eu senti o peso do mundo sobre os ombros dela. Eu a vi se trancar no quarto por dias, recusando-se a comer, enquanto os avós batiam na porta com preocupação. E eu estava lá, sempre lá.
No dia em que perdeu o avô, seu único referencial de estabilidade, ela caminhou sozinha até o cemitério, ignorando os olhares dos outros. Sentou-se ao lado do túmulo por horas, murmurando palavras que nem o vento conseguiu carregar. Eu permaneci ao lado dela, invisível, mas constante.
Quando os anos a levaram para longe daquela cidade pequena, eu a acompanhei. Em um apartamento minúsculo em uma metópole caótica, eu a vi reinventar-se. Era como se ela estivesse tentando construir uma nova vida sobre as ruínas do passado, mas os fantasmas a perseguiam. Ela sorria para os colegas de trabalho, mas, à noite, encarava o teto, perdida em pensamentos que eu não podia acessar. Estava ali também quando o frasco de comprimidos foi aberto com mãos trêmulas. E fiquei ao seu lado enquanto ela hesitava, finalmente jogando-os no lixo, como se desafiasse a própria escuridão.
Houve momentos de alegria também. O dia em que conseguiu publicar seu primeiro livro, por exemplo. Ela chorou de alegria ao segurar a edição em mãos, como se aquele fosse o único momento em que o mundo a reconhecia. E eu estava ali, no silêncio de sua realização, compartilhando sua felicidade.
No entanto, o destino não era gentil. Um diagnóstico veio, inesperado e cruel. Eu estive lá, no consultório, enquanto o médico explicava, em termos frios, as limitações e os desafios. Ela ouviu tudo em silêncio, mas eu vi a batalha travada dentro dela. Vi sua força, sua resistência, e o modo como ela se recusou a ser definida por aquilo.
E agora, aqui estamos. Ela está deitada em uma cama de hospital, seus cabelos grisalhos espalhados pelo travesseiro. A respiração é fraca, mas constante. O quarto está vazio, exceto por mim. Sempre por mim.
“Eu nunca estive sozinha”, ela sussurra, com um sorriso suave que mal ergue os lábios. Seu olhar vagueia pelo teto, mas eu sei que ela me sente. Pela primeira vez, parece que ela sabe que eu estou aqui.
Quando sua última respiração se esvai, eu a acolho. Porque eu sempre estive lá. Desde o primeiro momento, eu fui sua sombra, sua companhia invisível, sua constante.
E agora, juntos, atravessamos a fronteira para onde a solidão nunca mais poderá alcançá-la.
Silvia Marchiori Buss

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