Areia Movediça

 As areias movediças da vida nem sempre se apresentam como terrenos traiçoeiros e visíveis. Muitas vezes, elas estão disfarçadas na rotina, nos compromissos inadiáveis, nas relações que, ao invés de nos fortalecer, nos aprisionam.

A cada dia, enfrentamos situações que nos fazem afundar lentamente, sem perceber. Um emprego que já não nos realiza, um relacionamento que perdeu a reciprocidade, um ambiente que sufoca em vez de acolher. No início, nos convencemos de que tudo está bem, que é apenas uma fase, que logo o solo se tornará firme novamente. Mas o tempo passa e percebemos que não é apenas o chão que nos prende — somos nós que, por medo ou conformismo, nos acostumamos com a sensação de afundar.

 

-Júlia sentiu isso na pele. A casa que um dia fora um refúgio tornou-se sua prisão. O olhar de Miguel, antes terno, se transformou em um peso constante, como se cada decisão precisasse ser justificada. Quando percebeu, já não tinha mais liberdade, apenas a ilusão dela. Cada passo era vigiado, cada desejo controlado, cada tentativa de respirar tolhida por justificativas vazias. "Você já tem tudo o que precisa aqui"

 -Mas quem define o que é tudo?

A areia movediça da vida pode ser sutil. Pode vir disfarçada de estabilidade, de conforto, de rotina. Mas ela tem um sintoma claro: quando percebemos que já não somos mais quem éramos, que cada passo nos puxa mais para dentro de algo que nos apaga.

No entanto, há uma escolha e podemos decidir sair. Podemos reunir a coragem que resta, dar um passo firme e, mesmo com medo, correr em direção ao desconhecido. Porque há algo que a areia movediça nunca poderá engolir completamente: a vontade de viver.

 

Silvia Marchiori Buss

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