Areia Movediça - conto

 O calor daquela tarde grudava na pele como um peso invisível. Júlia sentia o ar estagnado dentro de casa, um sufoco que parecia vir de dentro para fora. O ventilador zumbia preguiçoso no canto da sala, mas não dissipava a sensação de estar presa. Sentada na poltrona, ela observava o reflexo trêmulo do sol nas vidraças e tentava lembrar quando aquela casa, que um dia fora um sonho, começou a sufocá-la.

Quando ela e Miguel a escolheram, tudo parecia perfeito. Discutiram cores de parede, o modelo das cortinas, o tipo de madeira para o piso. Riram, brigaram, fizeram as pazes entre catálogos e visitas a lojas de decoração. No início, cada detalhe da casa parecia um reflexo do amor que construíram juntos. Mas, pouco a pouco, aquele lar se transformou em uma jaula dourada.

— Aonde você vai? — a voz de Miguel soou às suas costas quando ela pegou o casaco.

Júlia fechou os olhos por um instante, sentindo a nuca arrepiar. Respirou fundo antes de responder:

— Vou dar uma caminhada. Está abafado aqui dentro.

— Eu já abri as janelas. Não precisa sair.

Ela parou. Virou-se lentamente para encará-lo. O homem que antes a fazia sentir-se segura agora parecia um guardião de grades invisíveis. Miguel sorriu, mas era um sorriso frio, de quem acredita ter tudo sob controle. Sem dizer mais nada, Júlia pendurou o casaco de volta e sentou-se no sofá. Sentiu o chão sob seus pés, mas parecia que afundava um pouco mais a cada dia.

As semanas se arrastaram. O jardim, antes tão vivo, perdeu o brilho. A varanda, onde costumavam tomar café rindo das trivialidades do dia, tornou-se um espaço vigiado, onde Miguel marcava território com sua presença silenciosa. Ele não precisava gritar, não precisava trancar portas. Seu olhar fazia o trabalho por ele. Cada gesto de Júlia era medido, cada saída questionada, cada palavra interpretada como um desafio.

— Preciso sair, Miguel. Preciso respirar.

— Você já tem tudo aqui. O que mais quer?

— Quero o mundo. Quero errar e acertar sem pedir permissão.

Ele riu. Um riso seco, de quem se acredita dono da razão. Júlia não insistiu. Aprendeu que discutir era como atirar pedras no oceano: tudo se dissipava sem deixar rastro. Mas, dentro dela, algo se movia. Um fio de resistência silenciosa.

Naquela noite, quando Miguel dormiu, ela se levantou. As luzes da cidade piscavam ao longe, como um convite. Abriu a porta devagar, o coração martelando no peito. Sentiu o vento tocar sua pele e inspirou fundo. Depois de tanto tempo, era como se respirasse de verdade pela primeira vez.

Ela não olhou para trás. Apenas correu. Correu até sentir o corpo leve, até perceber que, pela primeira vez em anos, era dona dos próprios passos.

Na manhã seguinte, Miguel acordou e encontrou a casa vazia. Sobre a mesa, um bilhete curto:

“Me deixe viver. Me deixe morar onde o ar é livre, onde os sonhos têm espaço. Não me prenda feito areia movediça. Adeus.”

Longe dali, Júlia recomeçou. Um apartamento pequeno, um trabalho simples, ruas desconhecidas que se tornavam familiares a cada dia. Ainda havia sombras do passado. Ainda havia noites em que sentia o aperto invisível de Miguel, o eco das palavras que ele dizia. Mas agora ela sabia. Sabia que era mais forte que a areia movediça.

E nunca mais parou de caminhar.



 

Silvia Marchiori Buss

 

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