A Vida Entre Vírgulas
Desde o primeiro choro ao nascer até o último suspiro, nossa existência é pontuada por vírgulas. Pequenas pausas, desvios inesperados, reticências disfarçadas que nos fazem repensar o caminho. A vida, ao contrário do que muitos acreditam, não é um ponto final, mas um texto em constante reescrita, repleto de interjeições, travessões e parênteses que guardam histórias ocultas.
Chegamos ao mundo como uma frase inacabada, um esboço de
narrativa ainda sem rumo. O primeiro respiro, a primeira luz, o primeiro
toque—marcos iniciais que já se inscrevem em nossa biografia antes mesmo de
compreendermos seu significado. No começo, tudo parece seguir um fluxo natural:
aprendemos a caminhar, a falar, a reconhecer vozes e sorrisos. Mas logo
percebemos que a linha do tempo não é reta, que as palavras podem ser cortadas
no meio, que a trama se entrelaça com mistérios e desvios que não controlamos.
A infância é um parágrafo onde tudo flui com leveza.
Brincadeiras despreocupadas, promessas de amizade eterna, sonhos que parecem
infinitos. Mas então surgem as primeiras vírgulas: a dor de um joelho ralado, o
choro contido diante de uma despedida, a frustração de um "não"
inesperado. Pequenas pausas que nos ensinam que nem sempre o mundo gira
conforme nossa vontade.
Na juventude, a vida acelera. Os travessões das descobertas,
as exclamações dos primeiros amores, as interrogações angustiantes sobre o
futuro. Entre uma escolha e outra, vírgulas se intercalam, impondo pausas no
entusiasmo da pressa. Nem sempre seguimos o roteiro que imaginamos. Às vezes,
um sonho nos escapa por entre os dedos; outras vezes, um tropeço nos obriga a
refazer caminhos. Mas é entre essas interrupções que aprendemos o verdadeiro
significado da resiliência.
A maturidade nos apresenta um novo parágrafo. As vírgulas
tornam-se mais evidentes, pontuando perdas e recomeços. O primeiro grande
tombo, a renúncia a uma ilusão, a despedida de quem amamos. As aspas dos
conselhos guardados, as interrogações sobre escolhas passadas, os dois pontos
antes de uma decisão irreversível. É nesse momento que aprendemos a respeitar
as pausas da vida, a valorizar os silêncios, a encontrar sentido até nas frases
que parecem incompletas.
Há vírgulas que doem profundamente. O adeus inesperado, a
ausência que pesa, o vazio deixado por quem partiu. Algumas pausas nos quebram,
nos fazem sentir perdidos dentro da própria história. Mas há também aquelas
vírgulas que nos salvam. O abraço que nos reconstrói, o olhar que nos faz
seguir adiante, a mão estendida no momento certo. Uma nova amizade que
surge...Um novo amor...
Vivemos entre pausas. Nunca sabemos quando a próxima vírgula
surgirá—se será suave como um sopro ou abrupta como um vendaval. E muito menos
se, ao final da linha, encontraremos um ponto definitivo ou apenas uma
reticência, indicando que algo maior nos espera além da última página.
Talvez, no fim das contas, a vida seja isso: um texto sem
roteiro fixo, onde o que realmente importa não são as interrupções, mas sim a
maneira como escolhemos continuar a história. Afinal, entre uma vírgula e outra,
há vida.
Silvia Marchiori Buss
Comentários
Postar um comentário